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Fome de ser
Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência. Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em…
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Tombamento afetivo
Desde a infância, aprendi que as coisas possuem um peso que excede a sua matéria. Cresci em um cenário onde a escassez ditava as regras, e por isso cada brinquedo, cada livro ou CD que aterrissava nas minhas mãos era o troféu de um esforço familiar conjunto. Os meus pais não apenas compravam: investiam um pedaço da própria vida, doando horas de trabalho e estrangulando desejos pessoais para me proporcionar aquele pequeno luxo. Aquilo não era consumo. Era afeto traduzido em matéria. Foi nesse solo que germinou a minha disciplina com os meus pertences. Aprendi a tratar cada objeto como relíquia, não pelo valor de mercado, mas pelo tombamento afetivo…
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Sinusite
Escrito em 2012, sobre 1990 ou 1991. Eu devia ter cinco ou seis anos. A minha primeira epifania de autoconsciência materializou-se numa tarde de infância, enquanto eu brincava sobre o muro dos fundos de casa, no bairro Grande Vitória. Estava ali, agachado, imerso na simplicidade ingênua dos jogos solitários, quando um desconforto súbito tomou de assalto a minha fronte. Entre os olhos, uma dor pulsante começou a ditar o seu ritmo, uma pressão densa que o meu vocabulário de menino ainda não sabia nomear. Mais tarde, a medicina chamaria aquilo de sinusite. Naquele instante, a única certeza era a presença irrefutável do incômodo, despontando em exata sincronia com o fim…
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A estética do assombro
Em Mateus 18, diante da pergunta sobre quem seria o maior no reino dos céus, Jesus coloca uma criança no meio dos discípulos e diz que é preciso tornar-se como ela. O sentido primeiro é humildade: o menino é pequeno, dependente, não tem posição a defender. Mas há uma segunda coisa naquela criança, e é dela que quero falar. A infância carrega uma capacidade ilesa de assombro. É a virtude de não domesticar o olhar, de enxergar em cada instante uma fenda para a descoberta. Ser como uma criança é declarar guerra à banalidade e recusar a cegueira diante do comum. O relato de um colega sobre uma viagem de…
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Quando os justos sussurram
A medida exata do declínio de uma civilização não está na falência de suas economias, mas na forma como ela passa a enxergar as suas crianças. O utilitarismo moderno operou uma inversão na nossa consciência: a infância, que deveria ser o eixo da nossa esperança, passou a ser tratada como um peso. Na ditadura do conforto e da conveniência, a vida humana em sua fase mais vulnerável tornou-se um estorvo funcional. Nesse cenário, o que mais assusta não é o barulho dos que atacam a vida, mas o silêncio dos que deveriam defendê-la. Onde estão as vozes que deveriam ecoar como trovões diante da injustiça? O golpe mais duro não…
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Cheiro de carro novo
Nos anos 1990, uma pessoa de baixa renda conquistar um carro zero quilômetro não era comum. Nos bairros periféricos se viam poucos carros, muito raros, e certamente nenhum zero. A notícia de que meu tio havia comprado um carro na concessionária foi recebida com alegria. Parecia que todos nós havíamos melhorado financeiramente, mesmo sem ver o carro. Ele já tinha um Corcel II, se não me engano azul. Agora havia trocado por um Escort Hobby da Ford. Vi o carro pela primeira vez já na garagem, os bancos embalados no plástico transparente. O cheiro de carro novo era cheiro de ambiente que nunca havíamos frequentado. A concessionária presenteou minha tia…
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Outro costume, a mesma procura
Primeiro de Maio, 1996 — Pedra dos Búzios, Vila Velha. Mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, e por alguns dias ficamos sem reunir. Meu pai seguia pastor pela CADEESO, mas já não estávamos no antigo ministério, a Assembleia de Deus no Alagoano, aquela que ele mesmo fundara e entregara ao pastor Manoel Samora. Foi um breve silêncio de igrejas, um intervalo entre um rebanho e outro. Não demorou e uma menina, um pouco mais velha do que eu, apareceu com um convite: “Vamos à Primeira Igreja Batista do Primeiro de Maio?” Morávamos na Alameda Caboclo Tamandaré; a igreja ficava ao fim da alameda, à direita. Pedi permissão aos…
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Uma laranja para Marcela
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela época, significava submissão. Tudo o…
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Linha de anzol
O céu estava azul. Algumas nuvens espalhavam-se pelo horizonte. Meu pai trabalhava fora, enquanto minha mãe, em sua labuta doméstica incansável, parecia nunca parar. Ela acordava antes de todos e só encontrava repouso muito depois que meu pai. Suas mãos moldavam o dia, enquanto meu universo infantil se desenrolava no quintal de nossa casa. Era um quintal vasto, um território onde cada grão de areia parecia ter uma história. Minha brincadeira favorita era contá-los, sem pressa, sem compromisso. Nessa vastidão, encontrei um canto especial: um amontoado de cascalhos, pedaços de lajotas e rebocos que um dia sustentaram uma casa. Agora, aquelas ruínas do passado haviam se tornado chão. Em meio…
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O Cascalho
Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de cascalhos, restos de reboco e lajotas, era o cenário perfeito para as nossas brincadeiras. Tudo ia bem até que algo, não me lembro exatamente o quê, desagradou o Rafael. Ele ficou irritado e partiu para cima de mim com ofensas. Fui pego de…



























