Um ato de amputação
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações.
É contra essa inércia que o apóstolo Paulo adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas uma coisa, esquecer o que fica para trás, não está propondo um exercício de amnésia tola. Está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a nossa identidade dos erros, das dores e até das glórias passadas que, se alimentadas, tornam-se âncoras que nos afundam no mesmo lugar.
Mas apenas cortar a âncora não faz o barco navegar. O esquecimento é o esvaziamento necessário para o próximo passo: avançar.
A vida em Cristo é essencialmente tração. Exige deslocamento. O avanço demanda a coragem brutal de olhar para o desconhecido e dar o passo, sabendo que permanecer estático é a forma mais silenciosa de morrer por dentro. O alvo de que Paulo fala, o prêmio da soberana vocação, não é uma meta de produtividade humana. É a própria eternidade puxando o nosso presente para frente.
A disciplina diária é não deixar o passado ditar a velocidade dos nossos pés.
Que o chamado de Deus nos puxe com mais força do que os nossos medos conseguem nos segurar.


