• Artes & Narrativas

    Planilhamos os nossos afetos

    A chuva espancava a janela com uma cadência que emulava o compasso de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas aquele objeto frio que repousa…

  • Filosofia & Teologia

    Eu estudei o relógio de ponto

    Em 2020 eu defendi um mestrado em Gestão Pública. O objeto era o módulo de registro eletrônico de frequência implantado no sistema de recursos humanos do instituto federal onde trabalho. O ponto eletrônico dos servidores. A pergunta era como os fatores psicossociais influenciavam a intenção de uso daquele sistema. Apliquei um questionário a 446 servidores, usei modelagem de equações estruturais e testei onze hipóteses sobre atitude, autoeficácia e ansiedade. Hoje eu escrevo um doutorado sobre racionalização e sistemas algorítmicos na educação. Levei seis anos para perceber que é o mesmo assunto, e que eu mudei de lado. O relógio de ponto é a racionalização na forma mais pura que existe.…

  • Artes & Narrativas

    O Departamento de Medição do Progresso

    O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o progresso técnico reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…

  • Filosofia & Teologia

    A gramática e o poeta

    Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos. A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático. E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza. Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma. Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma…

  • Filosofia & Teologia

    O diagnóstico de 2001

    Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…

  • Filosofia & Teologia

    A metodologia comporta o desejo

    Num relatório de estágio, entre uma consideração sobre jogos teatrais e outra sobre cultura local, eu escrevi a tese central de tudo o que viria a pesquisar depois. Está assim: A metodologia é uma invenção que cria limites para que o aluno possa chegar onde o professor deseja que ele chegue. A metodologia comporta dentro de si mesma o desejo. Ela em si é crua e seca, mas há um sentimento pulsante dentro dela, pois deseja levar a experiência a um determinado lugar, em busca de um resultado já conhecido. E completei, na sequência: a metodologia não permite a construção do novo, apenas uma inovação. Permite aperfeiçoamento, mas não criação.…

  • Filosofia & Teologia

    Realizar

    Anotei, no fim daquele caderno de observação, uma frase sobre o professor que eu acompanhava: Ele não trabalhava com o conceito de certo e errado. Trabalhava com o realizar as atividades. E anotei também como isso funcionava na prática: ele passava de mesa em mesa atribuindo pontos a quem estivesse desenvolvendo a tarefa. Na época eu li aquilo como escolha pedagógica, e é uma escolha defensável. Em Artes, o certo e o errado são categorias frágeis. Um traço não é falso. Um grafismo não erra a resposta. Avaliar execução em vez de acerto é razoável, e há tradição respeitável defendendo exatamente isso. Hoje eu vejo a outra metade. Aquela turma…

  • Filosofia & Teologia

    7º Ano 1

    Uma coisa pequena me chamou a atenção logo no começo do estágio estágio supervisionado em Teatro, e eu a registrei no diário sem saber por que estava registrando. Na maioria das escolas, a turma se chama 7º Ano A. Um número para o ano, uma letra para a turma. Naquela escola, não. Chama-se 7º Ano 1. Dois numerais. Um para o ano, outro para a turma. Escrevi que aquilo me chamou atenção, e passei adiante. Não tinha nada a acrescentar, porque não tinha instrumento nenhum para pensar aquilo. Era só uma estranheza de nomenclatura, do tipo que a gente nota e esquece. Hoje, eu sei exatamente por que aquilo me…

  • Pólis & Gestão

    A forma sobre a intenção

    Os modelos de gestão operam em duas dimensões: a forma e a função. A própria noção de modelo sugere um molde, uma estrutura pré-definida que, embora adaptável a cenários variados, remete a um ideal normativo. Ele estabelece um padrão a ser seguido, balizando ações, decisões e estratégias. O perigo intrínseco a essa conceituação é que, dentro dessa estrutura, a forma frequentemente impõe soberania sobre a intenção. A rigidez do processo acaba subordinando e engessando o objetivo final da organização. Para contornar essa armadilha, os modelos mais maduros não se limitam à estética dos processos: buscam a integração entre forma e função. Se a perspectiva estrutural prioriza a organização e a…

  • Filosofia & Teologia

    Sem ter lido o roteiro

    O embate espiritual é insidioso justamente porque os seus golpes não deixam hematomas visíveis. É travado no silêncio, e o adversário não declara o ataque nem soa trombetas. Essa camuflagem exige vigilância ininterrupta e a percepção aterradora de que o terreno disputado somos nós mesmos. O demônio não age como estrategista. Opera como diretor de teatro. Arquiteta narrativas inteiras, oferece papéis sedutores e nos transforma em protagonistas de uma tragédia sem que tenhamos lido o roteiro. A sua maior astúcia é nos manter no centro do palco, inebriados pela falsa sensação de que estamos no controle da peça, quando é ele quem dita cada ato. Esse espetáculo não é passatempo:…