Realizar
Anotei, no fim daquele caderno de observação, uma frase sobre o professor que eu acompanhava:
Ele não trabalhava com o conceito de certo e errado. Trabalhava com o realizar as atividades.
E anotei também como isso funcionava na prática: ele passava de mesa em mesa atribuindo pontos a quem estivesse desenvolvendo a tarefa.
Na época eu li aquilo como escolha pedagógica, e é uma escolha defensável. Em Artes, o certo e o errado são categorias frágeis. Um traço não é falso. Um grafismo não erra a resposta. Avaliar execução em vez de acerto é razoável, e há tradição respeitável defendendo exatamente isso.
Hoje eu vejo a outra metade.
Aquela turma não conseguia ficar dez minutos sentada. Praticamente todos os alunos tinham celular em sala. Enquanto o professor explicava repetição, ritmo, equilíbrio, escala e movimento, algumas alunas gravavam uma dança sem que ele percebesse.
Num ambiente assim, quantas coisas restam mensuráveis?
Não dá para medir compreensão, porque a explicação oral quase não acontece. Não dá para medir atenção, porque a atenção é justamente o recurso em disputa. Não dá para medir qualidade, porque discutir qualidade exige um tempo de conversa que aquele espaço não oferece.
Sobra uma coisa só: se a pessoa está fazendo.
E então a régua passa a ser a realização. Fez, ponto. Não fez, sem ponto.
Isso não é preguiça de avaliador. É o que sobra quando tudo o mais foi levado embora. O professor não escolheu essa métrica: ele foi ficando com ela, à medida que as outras se tornaram inaplicáveis.
E é exatamente esse o movimento que eu estudo hoje.
Quando um sistema perde a capacidade de medir o que importa, ele não admite que perdeu. Ele troca de indicador. Passa a medir o que ainda consegue capturar, e com o tempo esquece que aquilo era um substituto. O indicador vira o objetivo, e o objetivo original evapora sem que ninguém tenha decidido abandoná-lo.
Chama-se progresso, e vem em forma de planilha preenchida.
Naquela sala, o que restou mensurável foi o gesto de riscar o papel. E o gesto virou o critério.
Não culpo o professor. Ele estava sozinho, com cinquenta minutos e uma turma inteira, fazendo o que dava para fazer.
Mas vale dizer em voz alta o que aquilo significa: numa aula de Artes, sobre grafismo, com bancadas próprias, pias, ar-condicionado e vista para a baía de Vitória, a única pergunta que a estrutura ainda conseguia responder era se a criança havia desenhado alguma coisa.
Qualquer coisa.


