Educação & Cuidado

Ilhas afastadas

Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu.

Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles.

Escrevi no diário: eram ilhas afastadas.

E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno.

Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez.

Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que se levanta, que sai da sala, que chega atrasado e recebe ocorrência. Esse aparece nos registros, nos conselhos de classe, nas conversas na sala dos professores. Ele dá trabalho, e dar trabalho é uma forma de existir.

E existe a outra, que nenhum sistema detecta, porque ela não produz ocorrência nenhuma.

É o aluno que entrega tudo, não pergunta nada, não pede nada, não incomoda ninguém e atravessa o ano inteiro sem que uma única pessoa dirija a palavra a ele por motivo que não seja a tarefa.

Ele não é problema. É por isso que ele é invisível.

Eu sei disso de dentro. Passei anos caminhando encolhido, de cabeça baixa, tentando ocupar menos espaço no mundo como se isso me garantisse o benefício da invisibilidade. Aprendi cedo que quem não incomoda não é olhado, e que não ser olhado, para quem tem medo, parece proteção.

Não é. É só solidão com boa reputação.

O que mais me pega naquela cena, quatro anos depois, é que eles não interagiam nem entre si. Duas pessoas na mesma condição, na mesma sala, na mesma mesa distante, e nem isso as aproximou. Cada uma na sua ilha.

Não sei o nome de nenhum dos dois. Estive naquela biblioteca poucas vezes e nunca falei com eles, o que significa que eu também não falei.

Fui mais um adulto naquela sala que não dirigiu a palavra a duas crianças que estavam fazendo tudo certo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *