Ilhas afastadas
Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu.
Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles.
Escrevi no diário: eram ilhas afastadas.
E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno.
Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez.
Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que se levanta, que sai da sala, que chega atrasado e recebe ocorrência. Esse aparece nos registros, nos conselhos de classe, nas conversas na sala dos professores. Ele dá trabalho, e dar trabalho é uma forma de existir.
E existe a outra, que nenhum sistema detecta, porque ela não produz ocorrência nenhuma.
É o aluno que entrega tudo, não pergunta nada, não pede nada, não incomoda ninguém e atravessa o ano inteiro sem que uma única pessoa dirija a palavra a ele por motivo que não seja a tarefa.
Ele não é problema. É por isso que ele é invisível.
Eu sei disso de dentro. Passei anos caminhando encolhido, de cabeça baixa, tentando ocupar menos espaço no mundo como se isso me garantisse o benefício da invisibilidade. Aprendi cedo que quem não incomoda não é olhado, e que não ser olhado, para quem tem medo, parece proteção.
Não é. É só solidão com boa reputação.
O que mais me pega naquela cena, quatro anos depois, é que eles não interagiam nem entre si. Duas pessoas na mesma condição, na mesma sala, na mesma mesa distante, e nem isso as aproximou. Cada uma na sua ilha.
Não sei o nome de nenhum dos dois. Estive naquela biblioteca poucas vezes e nunca falei com eles, o que significa que eu também não falei.
Fui mais um adulto naquela sala que não dirigiu a palavra a duas crianças que estavam fazendo tudo certo.


