• Artes & Narrativas

    Ler é muito divertido

    Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…

  • Artes & Narrativas

    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

  • Artes & Narrativas

    Cada degrau é um ano

    Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…

  • Artes & Narrativas

    Sitiado por livros

    Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…

  • Filosofia & Teologia

    A renúncia invisível

    A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra. Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo. O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica. A…

  • Educação & Cuidado

    Obesidade de informações

    Quem partilha da minha rota conhece o meu vício mais enraizado: a paixão por aprender. Não falo da absorção rasa e utilitarista de informações que a modernidade nos empurra goela abaixo. Refiro-me ao aprendizado vertical, àquele mergulho em que cada texto é dissecado para pavimentar a construção de um saber denso. E, sim, eu leio muito, mas a maturidade me ensinou uma verdade dura: volume não é sinônimo de profundidade. É vital ler bem, de forma combativa, atacando as palavras com a fome de quem deseja desvendar a espinha dorsal daquilo que se oculta nelas. Foi no meio dessa busca que uma recomendação ouvida no programa do professor Olavo de…

  • Educação & Cuidado

    A coragem de se localizar

    A cartografia do sagrado exige um marco zero. O livro de Gênesis abre com “no princípio”, e é essa a lição que ele oferece antes de qualquer conteúdo: nenhuma travessia começa sem princípio declarado. O texto tem o seu, e quem lê precisa do seu. Assim como o viajante depende de um mapa, o estudante precisa de um ponto de origem para que a sua jornada ganhe tração. Todo aprendizado autêntico repousa sobre uma localização precisa. Ninguém se lança ao mar sem conhecer o próprio porto. Na teologia, a consciência dessa latitude espiritual é o primeiro pré-requisito. Você pode ainda não ter delineado a sua linha de chegada, mas ocupa,…

  • Educação & Cuidado

    A poeira da caminhada

    Em uma era de informação condensada, a leitura integral de uma obra tem perdido terreno para a tirania dos resumos. O mergulho completo no texto, porém, é a única via para uma compreensão profunda. Ler um livro inteiro não é exercício de absorção de dados: é aproximar-se da arquitetura completa do pensamento do autor, capturando as camadas de significado que a pressa jamais reproduz. Um resumo, por sua natureza utilitária, oferece uma visão mutilada. Sacrifica as minúcias e a riqueza contextual, e entrega ao leitor apenas a sombra da visão original, o que cerceia a possibilidade de um entendimento crítico e autônomo. Ler sem atalhos é uma prática formativa. Forja…

  • Educação & Cuidado

    Mortimer Adler

    Mortimer J. Adler foi filósofo, educador e coeditor, com Robert Hutchins, do projeto Grandes Livros do Mundo Ocidental, além de criador do Syntopicon. Compreendia a educação como a própria respiração da vida humana, e não como um confinamento de sala de aula. Sua obra ergue-se como um manifesto contra a superficialidade, pautada pela convicção de que qualquer pessoa tem o direito, e o dever, de acessar as obras que forjaram o pensamento ocidental. Ler os clássicos, para ele, era a aquisição das chaves necessárias para destrancar uma existência plena e consciente. Adler recusava a premissa de que a sabedoria profunda deveria ser monopólio de especialistas. Seus textos são provocações para…

  • Artes & Narrativas

    Vinte dias

    Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse caminho era o corredor que nos levava àquele terraço. Eu sempre levava meu violão Giannini série estudante, adquirido…