• Filosofia & Teologia

    Ler Weber por um brasileiro

    Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa. A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos. Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento. Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho. Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia. E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é…

  • Artes & Narrativas

    Ler é muito divertido

    Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…

  • Artes & Narrativas

    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

  • Artes & Narrativas

    Cada degrau é um ano

    Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…

  • Educação & Cuidado

    Interseccionalidade sem brasileiras

    Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…

  • Educação & Cuidado

    O nome que sumiu

    Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade. E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior. Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes. Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios. Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece. Mas repare no que aconteceu, exatamente. Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões…

  • Filosofia & Teologia

    Duzentos anos depois, a mesma pergunta

    Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…

  • Filosofia & Teologia

    Todos disseram a mesma coisa

    Reli, de uma vez, os resumos que escrevi para as disciplinas de filosofia. E encontrei uma coisa que não aparece quando se lê um por vez. No resumo de Nietzsche, concluí que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, moldada pelo contexto cultural e histórico. No resumo de Fourez, concluí que a objetividade é uma construção social, moldada por convenções culturais e linguísticas, sempre relativa a um contexto específico. No resumo de Descartes, concluí que o universo não é apenas criação divina, mas também criação da mente humana, uma realidade construída racionalmente. Três autores. Três séculos diferentes. Três projetos filosóficos incompatíveis entre si. E a mesma frase no…

  • Filosofia & Teologia

    Nem tese nem antítese

    Escrevi, resumindo Hegel, que a dialética dele funciona por tese, antítese e síntese. Escrevi a mesma coisa noutro trabalho, um ano antes, e ali usei aquele esquema para formular uma ideia que eu considero das melhores que já tive. Escrevi que conhecer é também retroceder. Que o caminho do ensino é uma espiral, um encontro de tese e antítese que forma uma síntese, e que a síntese logo vira tese de novo. E concluí: o que permite o progresso é o retrocesso. Continuo achando isso verdadeiro. Só que a tríade não é de Hegel. Aquele esquema de três tempos, com esses nomes, vem de outra linhagem e foi popularizado por…

  • Educação & Cuidado

    A África fora da história

    Resumi a Filosofia da História de Hegel para uma disciplina. Escrevi sobre o Geist, sobre o espírito do mundo, sobre a marcha da liberdade, sobre totalidade. Não escrevi uma linha sobre a parte que qualquer leitor brasileiro deveria encontrar primeiro. Na introdução daquele livro, Hegel exclui a África da história. Não é uma passagem lateral nem um deslize de época recuperável por contexto. É estrutura. Ele afirma que a África não é parte histórica do mundo, que não apresenta movimento nem desenvolvimento a exibir, e que por isso deve ser deixada de fora da consideração. Descreve os africanos em termos que são racistas de forma direta, e segue adiante. Ele…