Ler Weber por um brasileiro
Em um projeto de pesquisa não tinha pesquisa dentro. Mas tinha uma intuição, e a intuição era boa.
A ideia era ler Max Weber através de Mário Ferreira dos Santos.
Weber é o autor central da minha área. Racionalização, desencantamento.
Mário Ferreira dos Santos é um filósofo brasileiro, gaúcho, que morreu em 1968 depois de produzir uma obra de dimensões quase impossíveis, incluindo uma enciclopédia filosófica escrita praticamente sozinho.
Ele está fora do cânone universitário brasileiro. É pouco citado em programas de pós-graduação, quase não aparece em bibliografia de disciplina, e circula sobretudo fora da academia.
E a ideia de ler um clássico europeu através de um pensador brasileiro é exatamente o movimento que a minha tese precisa e que eu não fiz.
Escrevi, faz pouco, que a minha bibliografia sobre racionalização é inteiramente europeia. Weber, Adorno, Horkheimer, Ellul. Todos descrevem o fenômeno de dentro do lugar onde ele nasceu, e eu escrevo do Espírito Santo, sobre estudantes de escola pública de periferia.
Reclamei disso como se fosse uma descoberta recente.
E encontrei, num arquivo de 2024, uma tentativa minha de resolver exatamente esse problema.
O projeto fracassou por execução. O documento tem marcador de posição não preenchido, seção duplicada, resultados inexistentes e uma confusão séria no conceito central, porque lógica simbólica, em filosofia, é o nome da lógica formal, e não da análise de símbolos culturais.
Nada disso invalida a intuição.
A intuição é: quando eu descrevo a racionalização com ferramentas produzidas na Alemanha e na França, eu importo junto o lugar de onde elas veem o fenômeno. E o Brasil não está nesse lugar.
Precisa-se de alguém que tenha pensado daqui.
Pode ser Mário Ferreira dos Santos, e para isso é necessário ler a obra dele de verdade, com título correto e conceito correto, o que dá trabalho e é o trabalho.
Pode ser outro. Há uma tradição brasileira de pensamento sobre técnica, trabalho e instituição que quase nunca entra nas teses sobre racionalização.
Então fica registrado o seguinte, para uso próprio.
Em 2024 eu tive a ideia certa e produzi um documento vazio.
O conserto não é ter outra ideia.
É voltar àquela e fazer o que não foi feito.


