Artes & Narrativas

Economia dos meios

Entre os princípios técnicos do trabalho com bonecos, anotei este:

Economia dos meios. A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações.

E depois listei os outros: o foco, a indicação pelo olhar, a triangulação que busca o diálogo, a manutenção do nível do boneco em relação a um ponto fixo, e a respiração.

Todos são formas de fazer menos.

Um boneco que se mexe o tempo todo não está vivo. Está agitado, que é outra coisa. O que produz a ilusão de vida é o contrário: um gesto por vez, na hora certa, e depois a quietude. É a pausa que faz o público acreditar, porque é na pausa que a coisa parece estar decidindo.

Quem manipula demais mata o boneco de excesso.

Aprendi esse princípio muito antes de ler sobre ele, e não foi no teatro.

Meu pai é um homem de economia de gesto. Senta perto da porta. Constrói com as próprias mãos o que precisa ser construído. Paga do bolso o que a instituição se recusa a pagar, e não comenta. Não levanta a voz. Em todos os anos que tenho de memória, eu o vi chorar uma única vez, e ele disse uma palavra só.

Nunca precisou de mais do que isso para ocupar uma sala inteira.

E eu passei a vida fazendo o oposto no papel.

Escrevi textos com três metáforas onde cabia uma. Chamei a mesma coisa de âncora, de força gravitacional, de ímã e de fração de segundo, em vinte anos de repetição que eu não enxergava. Coloquei adjetivo em cima de substantivo que já dizia tudo. Fechei textos bons com parágrafos que explicavam o que a cena já tinha mostrado.

Excesso de manipulação.

E o mais interessante é que os meus melhores textos são justamente aqueles em que eu não tentei nada. O relato de um rapaz humilhado num ônibus, sem uma única figura de linguagem. Uma mulher lendo um romance de banca no sofá vermelho. Um cartório onde se registra o primeiro choro.

Nesses, eu fiz o que meu pai faz: um gesto, na hora certa, e depois calei.

O princípio do ator-animador e o princípio do meu pai são o mesmo princípio, e nenhum dos dois foi aprendido em livro.

A precisão é mais poderosa que a quantidade de ações.

Levei quarenta anos e uma resenha de teatro de bonecos para ler isso escrito.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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