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O silêncio que não é meu
Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…
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Ouvir o próprio pé
Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala. Depois, um deles contou o que tinha acontecido. Disse que ouviu o próprio pé. Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho. Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas. E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala…
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O cientista e a cobaia
Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não. Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias. Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo…
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A ansiedade como resultado
No meu mestrado, medi a ansiedade tecnológica de 446 servidores diante do sistema eletrônico de ponto. Dois resultados apareceram, e os dois foram confirmados estatisticamente. Quanto maior a ansiedade, menor o uso do sistema. E quanto maior a ansiedade, maior a percepção de dificuldade para usá-lo. Também apareceu, na análise por subgrupos, que as servidoras relataram níveis um pouco mais altos de ansiedade que os servidores. Escrevi, na conclusão, que esses achados destacam a necessidade de suporte técnico e treinamento adequados para mitigar esses sentimentos e facilitar a transição para o novo sistema. Ou seja: encontrei ansiedade e recomendei tratá-la para que a adesão aumentasse. Hoje eu leio de outro…
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Aprendi a escutar
Numa autoavaliação de disciplina, escrevi que desenvolvi habilidades de escuta atenta e que aprendi a cultivar a empatia. Eu tinha trinta e oito anos. Fazia mais de vinte que eu pregava, o que significa ficar semanalmente diante de gente que chega com alguma coisa quebrada e espera que você diga algo que sirva. Fazia mais de dez que eu trabalhava com assistência estudantil, recebendo adolescentes que sentam na cadeira e contam coisas que não contaram a mais ninguém. E escrevi, num formulário de licenciatura, que naquele semestre eu havia aprendido a escutar. Não é mentira. É pior: é a resposta que o formulário exige. A pergunta era “quais saberes eu…
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Dez minutos
No meu diário de estágio, em 2022, escrevi o seguinte sobre a turma que eu observava: Na sala de aula a maioria dos alunos se levanta da cadeira. Não conseguem ficar sentados por dez minutos sem se levantar, nem que seja para não fazer nada e sentar novamente. A observação está certa. Foi o que eu vi, várias vezes, durante semanas. Anotei também que o professor concentrava a parte teórica sempre no início da aula, e supus o motivo: os alunos não conseguiam prestar atenção por muito tempo. Anotei que nos momentos teóricos eles perdiam a atenção com facilidade, que conversavam muito, que o professor avaliava mais o aspecto prático.…
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As parteiras
Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada. O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado. E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse. Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a…
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Deixar o outro ter razão
A coisa mais corajosa que Diderot fez em O Sobrinho de Rameau não foi criticar a sociedade francesa. Foi perder a discussão. O diálogo tem dois participantes. De um lado, o filósofo, que representa o próprio autor: sensato, moral, defensor da virtude. Do outro, o sobrinho: parasita, bajulador profissional, alguém que come na mesa dos ricos e paga divertindo-os, e que admite tudo isso sem constrangimento. O filósofo deveria vencer. É ele quem tem razão pelas regras que qualquer leitor traz de casa. E não vence. O sobrinho é mais vivo, mais engraçado, mais honesto sobre a própria degradação, e várias vezes mais lúcido a respeito de como o mundo…
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Em parceria com uma instituição religiosa
No projeto do meu último estágio de licenciatura, escrevi que pretendia trabalhar em parceria com uma instituição religiosa que promove atividades educativas extracurriculares para crianças em vulnerabilidade social. Instituição religiosa. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos. Conheço aquele lugar por dentro, sei o nome das crianças, sei quem levou cada uma delas e sei quais famílias não têm o que a gente supõe que toda família tem. E escrevi “em parceria com uma instituição religiosa”, como quem descreve um parceiro externo cujo nome ainda está sendo negociado. Não foi disfarce. Foi obediência ao formulário. Projeto de estágio pede campo, e campo, na gramática acadêmica, é um…
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Orvalhos de conteúdo
Escrevi, sobre o professor que eu observava, em meu estágio obrigatório do curso de Licenciatura em Teatro, que ele havia entrado no jogo da turma. Que dançava conforme a música. Que não impunha, e que tentava conciliar alguns orvalhos de conteúdo com uma torrente de interações discentes. Reli isso quatro anos depois e reconheço que aquela frase é a coisa mais precisa que eu escrevi em todo o estágio. Orvalho contra torrente. Ele tinha gotas para oferecer e a sala tinha enxurrada. O ciclo era sempre o mesmo, e eu o anotei com a paciência de quem observa por semanas. Ele entrava, ligava o computador, projetava slides para serem copiados.…



























