Em parceria com uma instituição religiosa
No projeto do meu último estágio de licenciatura, escrevi que pretendia trabalhar em parceria com uma instituição religiosa que promove atividades educativas extracurriculares para crianças em vulnerabilidade social.
Instituição religiosa.
Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos. Conheço aquele lugar por dentro, sei o nome das crianças, sei quem levou cada uma delas e sei quais famílias não têm o que a gente supõe que toda família tem.
E escrevi “em parceria com uma instituição religiosa”, como quem descreve um parceiro externo cujo nome ainda está sendo negociado.
Não foi disfarce. Foi obediência ao formulário.
Projeto de estágio pede campo, e campo, na gramática acadêmica, é um lugar onde o estagiário vai. Alguém que já pertence ao lugar não está indo a lugar nenhum, e por um instante aquilo parece desqualificar o projeto.
Então eu me descrevi como visitante da minha própria casa.
E o que torna isso interessante não é a formulação. É a comparação com os três estágios anteriores.
Naqueles, eu fui para uma escola pública estadual, e para conseguir entrar percorri várias escolas e fui recusado em quase todas. Descrevi o processo, no meu relatório, com a palavra saga. A formalização do segundo estágio foi pior que a do primeiro: liguei muitas vezes, mandei mensagem, e a resposta era que iriam assinar. Não assinavam. Em determinado momento me pediram que eu não fosse mais às aulas até que o contrato saísse.
Cheguei a escrever um relatório sobre um estágio ao qual eu estava proibido de comparecer.
E aí, no quarto estágio, eu propus fazer no único prédio da cidade onde eu tenho a chave.
Não vejo nisso desistência. Vejo uma decisão sensata tomada por alguém que já gastou dois anos batendo em porta.
Mas vale nomear o que aconteceu, porque acontece com muita gente e ninguém escreve.
Existe uma lógica silenciosa que empurra o trabalho social para dentro das igrejas, e ela não é espiritual: é logística. A escola pública tem calendário fechado, contrato, assinatura, hora-aula contada e nenhuma folga. A igreja tem sala vazia à tarde e gente disposta.
Por isso é lá que acontece o reforço escolar, a aula de música, o coral, o grupo de teatro e a distribuição de alimento.
Não porque a igreja seja melhor. Porque ela é a única instituição do bairro com espaço, motivação e permissão para usar.
E quando alguém escreve um projeto acadêmico sobre isso, precisa chamar de parceria com uma instituição religiosa, para que o documento se sustente.
O nome próprio fica de fora, junto com o resto.


