Quem é nós
Reli o projeto do meu último estágio e reparei numa coisa que eu não tinha visto.
Ele começa em primeira pessoa do singular. Pretendo desenvolver. Pretendo trabalhar. Realizarei oficinas.
E no meio do quarto parágrafo, sem aviso, vira plural.
Planejamos promover. Acreditamos que o teatro possui o poder. Esperamos contribuir. Nos permite unir a prática teatral com a educação, alinhando nossa vocação artística com a responsabilidade social.
Não havia equipe. Não havia coautor. Era um estagiário sozinho, escrevendo um projeto sobre oficinas que ele daria sozinho.
Quem é nós?
Ninguém. É o plural dos documentos, e ele aparece exatamente onde o texto começa a afirmar coisas grandes.
Repare na distribuição. O singular fica com as tarefas concretas: eu pretendo, eu realizarei, eu farei oficinas. O plural entra quando chegam as convicções: acreditamos no poder do teatro, esperamos formar cidadãos conscientes, alinhamos nossa vocação com a responsabilidade social.
As tarefas são minhas. As crenças são de uma comissão que não existe.
Isso não é vaidade nem descuido. É proteção.
Afirmar sozinho que o teatro tem o poder de transformar crianças é se expor. Se alguém discordar, discorda de mim. Já “acreditamos que o teatro possui o poder” é uma frase sem ninguém dentro, e ninguém discute com ela.
E aqui eu percebo uma coisa sobre mim que só apareceu depois de reler vinte anos de arquivo.
Eu tenho duas maneiras de sair da primeira pessoa do singular, e cada uma serve a um medo diferente.
Quando o assunto é vergonha, eu troco para a terceira pessoa. Escrevi um autorretrato inteiro chamando a mim mesmo de ele, com doze futuros de menino e a lista do que me envergonhava. Escrevi textos sobre humilhações minhas usando a distância do “ele” como anestesia. Num trabalho sobre maquiagem teatral, descrevendo o meu próprio rosto, escorreguei uma única vez e escrevi “o seu nariz”.
Quando o assunto é instituição, eu troco para a primeira do plural. Aí vira nós, planejamos, acreditamos, esperamos.
Nos dois casos, alguém sai de cena. Num, é o homem envergonhado. No outro, é o autor da afirmação.
E os melhores textos que eu já escrevi não têm nenhum dos dois.
Têm eu. Eu acreditei. Eu não fui escolha, fui o que tinha. Eu fiquei com ciúme de um livro de banca de jornal.
Nenhum “ele”. Nenhum “nós”.
Só o singular, que é onde dói e é onde funciona.


