• Filosofia & Teologia

    Talvez por medo, talvez por fé

    Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé. Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes. A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa…

  • Educação & Cuidado

    O silêncio que não é meu

    Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…

  • Artes & Narrativas

    A luta entre a voz e o corpo

    Num trabalho de iluminação cênica, precisei projetar uma cena. Descrevi três momentos, cada um com um tipo de luz, e cada um com um estado do ator. Reli três anos depois e descobri que tinha escrito a minha própria biografia sem perceber. O primeiro momento. A cena se inicia com o ator de cabeça baixa, agachado, a se levantar lentamente, olhando fixamente para um ponto na plateia. Luz frontal, até que ele fique completamente ereto. Cabeça baixa. Agachado. Escrevi, sobre mim mesmo, num relato de sonho: entrei de cabeça baixa, os olhos rastreando o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos, porque era vício antigo caminhar encolhido,…

  • Artes & Narrativas

    Coma induzido

    Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…

  • Filosofia & Teologia

    Não por falta de entendimento

    Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. E acrescenta uma cláusula que muda tudo. Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia. Não é burrice. É medo. Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento. Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada. Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata…

  • Artes & Narrativas

    Três refletores

    No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…

  • Filosofia & Teologia

    A cura pela fala

    Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto: Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos. E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale. Parei nessa frase por um tempo. Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam. Eu não falo. Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante…

  • Artes & Narrativas

    Velocidades diferentes

    Numa disciplina de laboratório de poéticas, construí duas performances. Uma se chamava Manifesto. A outra, Inventário. E, no memorial que escrevi depois, registrei uma descoberta que não era sobre teatro. Escrevi que o simbolismo do Manifesto estava, talvez, na falta de conexão imediata entre o falado e o movimento. Que nem sempre a fala consegue, ou pretende, se mover na mesma velocidade ou na mesma direção da ação. E completei, no parágrafo seguinte: o que é dito é uma mensagem, mas o que não é dito também é uma mensagem. O que é movimentado é uma mensagem, e também o que não é. Escrevi isso como observação técnica sobre construção…

  • Filosofia & Teologia

    Um tribunal improvisado

    Existe uma subversão profunda no sorriso que incomoda. Não se trata de um clichê romântico, mas de uma resposta que desarma. Em cenários onde o objetivo é a nossa desestabilização, onde o ar pesa com a tentativa de controle, o simples repuxar dos lábios converte-se em ato de resistência. Esse gesto, frequentemente decodificado pelo agressor como deboche, é a constatação espontânea de que a tentativa de cerceamento fracassou. Quem já foi alvo dessa dinâmica conhece a artilharia pesada do gesto. Ele opera como escudo, uma mensagem não verbal que decreta: eu permaneço inteiro, independentemente da sua fúria. E é exatamente essa autonomia que desconcerta quem aguardava submissão. A tranquilidade desestabiliza…

  • Filosofia & Teologia

    Uma âncora que ninguém atirou

    A dor da ansiedade é uma corrente invisível que esmaga a alma e asfixia o corpo. O seu nascedouro é a garganta, um nó que anseia por desatar-se e que se retorce. A garganta, esse limiar exato entre o dito e o não dito, converte-se no lugar onde a angústia inicia a sua marcha. É uma tensão que vibra como uma palavra aprisionada, um grito abortado. A partir dali, essa força despenca até o estômago, onde finalmente se aloja: um ponto de chegada denso e de chumbo, fixado como uma âncora que ninguém atirou. O estômago transforma-se no cemitério daquilo que deveria ter sido expelido e que se voltou contra…