Educação & Cuidado

O silêncio que não é meu

Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa.

Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor.

Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos.

Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava errado no meu vocabulário.

O meu silêncio é uma escolha covarde.

Eu tinha a voz. Tinha a língua, tinha a garganta, tinha o interlocutor na minha frente e tinha permissão para falar. Não falei porque tive medo. Isso é o que a palavra silêncio significa em tudo o que escrevi: a fala que existia e não saiu.

Nada disso descreve a experiência de uma pessoa surda.

E aqui está o erro que quase toda pessoa ouvinte comete, inclusive eu, ao escrever sobre isso: tratar a surdez como uma versão intensificada do meu silêncio. Como se fosse a mesma coisa, só que permanente.

Não é a mesma coisa. Não é nem parente.

Libras é uma língua. Tem gramática própria, sintaxe própria, e não é português traduzido para as mãos. É reconhecida por lei no Brasil desde 2002. Uma pessoa surda fluente em Libras não está em silêncio: está falando, em outra modalidade, com as mãos, com o rosto, com o corpo e com o espaço.

O silêncio, nessa história, é meu. É o que eu escuto, ou melhor, o que eu não escuto, porque não sei a língua.

Isso muda inteiramente quem está calado na cena.

Uma sala de aula com um estudante surdo e sem intérprete não é uma sala com uma pessoa silenciosa. É uma sala onde uma pessoa está falando e ninguém entende, o que é uma coisa bem diferente e bem pior.

E o que impede que ela seja entendida não é uma crença limitante de ninguém. É a ausência de intérprete, de material adequado e de professor com formação. Nenhuma quantidade de boa vontade produz um intérprete de Libras.

Preciso registrar, com alguma vergonha, que passei duas décadas usando silêncio como a minha metáfora principal sem nunca ter pensado em quem não escolheu.

E que a minha metáfora funciona justamente porque eu podia falar.

O silêncio de quem tem voz e não usa é um assunto legítimo, e continuo achando que vale escrever sobre ele. Mas ele é um privilégio disfarçado de ferida, e agora eu sei disso.

Quem não pode ser ouvido está falando o tempo todo.

Falta é gente que aprenda a olhar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *