• Artes & Narrativas

    O terceiro ato

    Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica. Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra. É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada. E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro. Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo…

  • Filosofia & Teologia

    O que permite o progresso

    No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…

  • Filosofia & Teologia

    Lombada de couro

    Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso. Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram…

  • Artes & Narrativas

    Ele foi legião

    Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…

  • Artes & Narrativas

    Missionário das minhas memórias

    Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer. E é no…

  • Filosofia & Teologia

    A coragem dos lúcidos

    Há, na matemática dos valores humanos, uma equação que subverte os números. Não porque uma pessoa valha mais que outra, mas porque aquilo que uma pessoa carrega pode fazer o que muitas, sem aquilo, não conseguem fazer. Um indivíduo armado de esperança realiza o que três desesperançados não realizam. A esperança não é otimismo passivo: é o sopro que move a engrenagem. Enquanto quem desistiu apenas sedimenta o chão do imobilismo, quem ainda crê ergue-se como um farol no nevoeiro. O mesmo vale para o propósito. Um com projeto de vida chega onde quatro à deriva não chegam. A vida sem direção é um barco refém do tédio, e o…

  • Artes & Narrativas

    Coma induzido

    Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…

  • Filosofia & Teologia

    Duzentos anos depois, a mesma pergunta

    Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…

  • Filosofia & Teologia

    Deslumbramento

    Aristóteles diz, na Metafísica, que os homens começaram a filosofar por espanto. Primeiro diante das dificuldades imediatas, depois avançando pouco a pouco para questões maiores. Espanto é o ponto de partida do conhecer. Não a necessidade, não a utilidade, não o método: o assombro diante de uma coisa que a pessoa não entende. E ele acrescenta uma observação que quase ninguém cita: o conhecimento dissolve o espanto de propósito. Dá o exemplo da diagonal do quadrado, que não pode ser medida pela mesma unidade do lado. No começo, isso é espantoso. Depois que se conhece a demonstração, espantoso seria o contrário. Ou seja: para Aristóteles, o espanto é o combustível…

  • Artes & Narrativas

    Eles se afastam lentamente

    Escrevi uma cena de reencontro. Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou. E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros. Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos. A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.…