Filosofia & Teologia

Duzentos anos depois, a mesma pergunta

Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento?

Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant.

Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes.

Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta.

As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito.

Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é falta de entendimento, mas falta de coragem. Daí o lema: ousa saber.

O problema é de vontade, e a solução é individual e moral.

Foucault recusa esse enquadramento e propõe outro.

Para ele, o esclarecimento não é uma doutrina nem uma época, mas uma atitude: um modo de se relacionar com o presente. E a crítica deixa de ser a pergunta sobre quais limites o conhecimento não deve ultrapassar.

Passa a ser esta: naquilo que nos é dado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte que é singular, contingente e produto de imposições arbitrárias?

Não é uma pergunta sobre coragem. É uma pergunta histórica.

E ela muda tudo para quem, como eu, escreveu a vida inteira sobre não ter conseguido falar.

Eu escrevi que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Isso é Kant, palavra por palavra, e é uma frase que me acusa.

Ela supõe que a coragem estava disponível e eu não a usei.

Foucault permite a outra pergunta, e ela é a que produz resultado: o que exatamente construiu aquele silêncio, e qual parte daquilo era necessário e qual era arbitrário?

E, quando eu faço essa pergunta ao meu próprio arquivo, as respostas aparecem com nome e data.

Um menino que ouviu que a sua roupa era brega e o seu cabelo estava errado, antes de ser levado a uma igreja para ser humilhado.

Uma sala de aula que leu a cor e o CEP de alguém como demérito.

Um chefe que ridicularizava subordinados na frente dos outros.

Um bairro onde faltavam palavras que outros tinham desde sempre.

Nada disso é natureza. Tudo isso é história, e história é contingente.

Escrevi, num texto sobre uma caverna, que a parede não era de pedra: era feita de sentenças que outras pessoas disseram.

Aquilo é Foucault sem que eu soubesse.

E é por isso que eu preciso das duas respostas, e não de uma.

A de Kant me lembra que existe uma parte que é minha e que eu não posso terceirizar, sob pena de ficar parado mais quarenta anos.

A de Foucault me impede de tratar como defeito de caráter uma coisa que foi construída por gente, em lugares específicos, em datas que eu consigo listar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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