-
Eu estou aqui
Há uma verdade que reverbera silenciosamente pelas frestas do mundo contemporâneo: em meio à multidão ruidosa, aos olhares desviados e às pressas inexplicáveis, existem aqueles que simplesmente esperam. São pessoas que, na quietude de suas próprias fraturas, aguardam por um encontro que as devolva ao contorno da própria humanidade. Há almas exaustas que não anseiam por conselhos ou respostas prontas, mas pela dignidade de um ouvinte atento. Há rostos marcados pela tristeza que não buscam explicações lógicas para a dor, mas um espaço seguro onde o silêncio seja permitido e o abraço sirva de abrigo. Ser o porto de quem se sente à deriva é oferecer o conforto de uma…
-
Uma clareira entre a pressa e a eternidade
O tempo é um enigma persistente que, como uma presença invisível, permeia cada fresta da existência. Somos cativos da cronologia e, ao mesmo tempo, os autores que fiam a sua passagem. Nossa vida se desenrola em um presente inquebrantável, o único solo firme onde o caminhar é possível. O hoje nunca está só: carrega o eco das saudades e a promessa dos sonhos. Não há avanço ou recuo que não parta do agora, e é nessa limitação que reside a beleza absoluta da vida. A sabedoria milenar nos recorda que há um tempo para tudo, mas o discernimento do instante exato não nasce do conhecimento comum. É o tempo que…
-
Amar é comparecer
Do rigor da razão brota a lógica; do pulsar do coração, a arte. Em nossa estrutura íntima, essas duas estradas se cruzam, tecendo histórias que a alguns comovem e a outros parecem inconcebíveis. A razão é a âncora que nos prende ao chão implacável da realidade, e o coração é o vento que dá movimento à jornada. A grande audácia existencial não é escolher entre eles, mas exigir ambos. Tratar a razão e o coração como inimigos é um erro comum. São velhos companheiros que, quando em harmonia, equilibram o nosso caminhar. Ter a coragem de sentar à mesa com essas duas forças é um privilégio árduo: é a honra…
-
O café das 17h30
Quando coloco um par de óculos escuros, vejo o mundo sob uma tonalidade mais escura. Minha visão não alcança diretamente o que está diante de mim, passa por uma lente que modifica o que vejo. Na empresa onde trabalho, costumo tomar um café às 17h30. Ao chegar à cozinha, encontro, na maioria das vezes, uma garrafa praticamente vazia. Diante disso posso dizer “só deixaram o resto para mim” ou “que bom, ainda restou um pouco”. Observar é uma escolha de perspectiva. Ao olhar para algo, podemos enxergar de diferentes ângulos, e a escolha do ângulo define nossa percepção. Muitas vezes escolhemos o ponto de vista inconscientemente, deixando que o piloto…
-
O que estamos dispostos a ver
Os dias, em sua passagem implacável, vão consumindo nossas forças, e o esforço de abrir caminhos nos enfraquece. A vontade de alcançar a chegada é tamanha que a ansiedade toma conta do coração, enchendo-o de pressa. Com os olhos fixos na meta, esquecemos de quem está ao nosso lado. Deixamos de ver aqueles que caminham conosco, como se fossem apenas sombras no caminho. Esquecer por ausência pode ser compreensível. Esquecer porque escolhemos não ver o outro é imperdoável. A cada dia que passa, me convenço mais de que enxergamos apenas aquilo que estamos dispostos a ver.
-
Instantes
Continuando a reflexão iniciada em Ninguém me pediu para escrever… Prometi escrever sobre a vida. Hoje descubro que é mais fácil prometer. A vida não se entrega inteira a quem escreve. Oferece pistas, fragmentos, impressões, e recolhe o resto. Pensei em falar dela como luta, como campo de batalha. Pensei em chamá-la de dádiva. As duas coisas são verdade e nenhuma basta, porque a vida é também aquilo que escapa justamente quando acreditamos ter compreendido. O que ela exige de mim? Presença. Não de corpo apenas, mas de alma desperta. Ela pede que eu esteja inteiro mesmo quando estou em pedaços. O que ela oferece? Instantes. Não promessas eternas, lampejos…

















