-
O que estamos dispostos a ver
Os dias, em sua passagem implacável, vão consumindo nossas forças, e o esforço de abrir caminhos nos enfraquece. A vontade de alcançar a chegada é tamanha que a ansiedade toma conta do coração, enchendo-o de pressa. Com os olhos fixos na meta, esquecemos de quem está ao nosso lado. Deixamos de ver aqueles que caminham conosco, como se fossem apenas sombras no caminho. Esquecer por ausência pode ser compreensível. Esquecer porque escolhemos não ver o outro é imperdoável. A cada dia que passa, me convenço mais de que enxergamos apenas aquilo que estamos dispostos a ver.
-
Instantes
Continuando a reflexão iniciada em Ninguém me pediu para escrever… Prometi escrever sobre a vida. Hoje descubro que é mais fácil prometer. A vida não se entrega inteira a quem escreve. Oferece pistas, fragmentos, impressões, e recolhe o resto. Pensei em falar dela como luta, como campo de batalha. Pensei em chamá-la de dádiva. As duas coisas são verdade e nenhuma basta, porque a vida é também aquilo que escapa justamente quando acreditamos ter compreendido. O que ela exige de mim? Presença. Não de corpo apenas, mas de alma desperta. Ela pede que eu esteja inteiro mesmo quando estou em pedaços. O que ela oferece? Instantes. Não promessas eternas, lampejos…





