A Aritmética do Abismo: O “3 mais 9” e a Fraude da Identificação
A ilusão poética do “3 mais 9” é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou como definitivos. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo e corrida; entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate, vira apenas uma fotografia embaçada na galeria da memória. Gestos, olhares e silêncios selam, de uma vez por todas, a nossa incapacidade de reconstrução.
Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena: a entrada na sala, o olhar cruzado à direita e a visão dela, a promessa de algo transcendente. Envolta em um moletom que simulava uma acessibilidade doce, ela trouxe a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas o conhecer é uma faca de dois gumes. Entre dois mundos separados por abismos invisíveis, a afinidade intelectual não basta para construir uma ponte. O velho sonho renasce no susto de uma postagem, no sobressalto de uma palavra dita, na tentativa vã de domesticar o futuro e armazenar o que é, por natureza, apenas sopro.
A realidade, porém, impõe a sua gravidade inevitável. A tecnologia, que prometeu encurtar distâncias, acabou por revelar o fosso intransponível. De um lado, o sol impiedoso de Brasília e a blindagem de um condomínio fechado; o luxo silencioso de um quarto climatizado onde a sujeira da vida é limpa por mãos alheias e pagas. Do outro, você, que nasceu antes, que calçou botas para enfrentar estradas mais ásperas e que aprendeu a escrever o roteiro com o próprio sangue.
A separação não é apenas geracional; é existencial. O que afasta esses dois mundos não são os anos, mas as ligas invisíveis do poder. É o dinheiro que lubrifica a vida fácil e a ausência da luta que confere uma leveza superficial, permitindo que se viva um filme romântico sem o peso da autoria. Nesse ecossistema, o amor é uma moeda trocada em corredores assépticos, e o encontro verdadeiro dissolve-se em vitrines de stories esvaziados e corpos exibidos em paisagens impecáveis.
O amor que pulsava desfaz-se como névoa diante da conta bancária e do CEP. O “3 mais 9”, aquela velha soma de esperança, revela-se como o que sempre foi: uma aritmética impossível. Tentou-se esticar a linha do tempo, mas ela rompeu-se sob o peso da realidade. No fim, resta a lucidez de quem sabe que afinidade de alma é um luxo que a conveniência social raramente se permite sustentar.
Às vezes, encontramos alguém com quem o “conhecimento” e as “afinidades” parecem bater perfeitamente, mas o modo de existir no mundo, as nossas lutas, as nossas cicatrizes e o preço que pagamos para chegar até aqui, cria um fosso que nenhum sentimento consegue saltar. Você já viveu essa frustração de perceber que o “moletom” da simplicidade era apenas a fachada de um mundo onde você nunca teria entrada? A caixa de comentários é o nosso espaço de desabafo e lucidez.


