• Pólis & Gestão

    A linha passa na minha mesa

    Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento. Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe. A linha passa na minha mesa. Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio. E o processo funciona assim. Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta. O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de…

  • Educação & Cuidado

    O projeto das cotas

    Em 2017 escrevi um anteprojeto de mestrado. A pergunta era esta: como a implementação das políticas de ações afirmativas influenciou as práticas organizacionais e culturais do campus onde eu trabalho? A lei de cotas era de 2012, a implementação nos institutos federais começara em 2013, e eu queria saber o que tinha mudado ali dentro depois disso. Não fiz. O mestrado que defendi, três anos depois, foi sobre a aceitação do sistema eletrônico de ponto pelos servidores. Já escrevi sobre outros projetos meus que não aconteceram. Um sobre arte e formação de subjetividades estéticas. Outro sobre ética e formação cidadã no ensino médio. Outro sobre ler Weber através de um…

  • Pólis & Gestão

    Quem carrega o piano

    A atual corrida eleitoral para a Mesa Diretora da CADEESO tem mobilizado lideranças e ampliado o debate sobre o futuro da nossa convenção. Ao analisar as propostas e, sobretudo, a composição das chapas, em especial a encabeçada pelo respeitado Pr. Kemuel Sotero, deparo-me com reflexões que exigem ser compartilhadas com honestidade. O peso de um nome é importante, mas a solidez de uma instituição exige um plano de governança claro e propostas que saiam do papel. Embora a referida chapa levante frequentemente a bandeira da união, a sua estrutura revela uma contradição prática. Caso seja eleita, teremos dois pastores da mesma igreja local ocupando os cargos mais estratégicos da convenção:…

  • Filosofia & Teologia

    Crenças limitantes

    Existe uma expressão que atravessa toda a literatura de autoajuda e que eu gostaria de examinar com calma: crenças limitantes. A ideia é conhecida. Aquilo que impede uma pessoa de chegar onde quer não está fora dela, está na cabeça dela. São pensamentos negativos, ideias herdadas, convicções sobre a própria incapacidade. Identifique essas crenças, substitua por outras, positivas, e o caminho se abre. Parte disso é verdadeira, e eu sou testemunha. Passei décadas com vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Nada daquilo era descrição da realidade. Era uma sentença que eu repetia sozinho, e ela me custou coisas que não voltam. Nesse ponto,…

  • Pólis & Gestão

    Uma senhora toma chá

    Usei, num artigo sobre a invisibilidade das contribuições femininas, o livro de David Salsburg que se chama Uma Senhora Toma Chá. Escrevi que Salsburg narra a história de uma mulher cujas observações simples e rigorosas resultaram em avanços significativos para a estatística moderna, e que foram desconsideradas por causa do gênero dela. Não foi bem isso, e a história verdadeira serve melhor ao meu argumento. O episódio é dos anos vinte, em Cambridge. Numa reunião com chá, uma mulher afirmou que conseguia distinguir se o leite tinha sido colocado antes ou depois do chá na xícara. Os homens presentes acharam graça. Um deles, Ronald Fisher, não achou. Propôs testar: preparou…

  • Educação & Cuidado

    Interseccionalidade sem brasileiras

    Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional. Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional. Está certo, e continuo sustentando. Agora olhe a bibliografia daquele artigo. Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense. Nenhuma autora negra brasileira. Nenhuma autora brasileira, aliás. Escrevi sobre a exclusão de mulheres em…

  • Artes & Narrativas

    Aritmética impossível

    Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas conhecer é…

  • Educação & Cuidado

    Crawford

    Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão. O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo. E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam. No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991. Na lista de referências, está escrito assim: CRAWFORD, Kimberlé. O título do artigo dela está certo. A revista está certa.…

  • Educação & Cuidado

    As condições materiais

    Resumi para uma disciplina um texto sobre materialismo histórico, e apresentei o núcleo metodológico dele como desenvolvimento teórico do século dezenove. O núcleo é este: para entender o que as pessoas pensam e fazem, olhe primeiro para as condições materiais em que vivem. Não são as ideias que produzem a vida; é a vida que produz as ideias. Escrevi aquilo como quem relata a posição de terceiros. E eu tinha, guardada numa pasta, a demonstração mais completa daquele princípio que eu poderia ter produzido. Passei meses observando uma escola pública de tempo integral, e o que anotei foi isto. Que a coordenadora precisou abrir quatro portas até encontrar uma sala…

  • Educação & Cuidado

    A África fora da história

    Resumi a Filosofia da História de Hegel para uma disciplina. Escrevi sobre o Geist, sobre o espírito do mundo, sobre a marcha da liberdade, sobre totalidade. Não escrevi uma linha sobre a parte que qualquer leitor brasileiro deveria encontrar primeiro. Na introdução daquele livro, Hegel exclui a África da história. Não é uma passagem lateral nem um deslize de época recuperável por contexto. É estrutura. Ele afirma que a África não é parte histórica do mundo, que não apresenta movimento nem desenvolvimento a exibir, e que por isso deve ser deixada de fora da consideração. Descreve os africanos em termos que são racistas de forma direta, e segue adiante. Ele…