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Sem parecer e sem formosura
A complexa relação da sociedade com a feiura vai muito além da estética: ela revela as várias formas de miséria que habitam a condição humana. O que rotulamos como feio muitas vezes começa no incômodo com o corpo fora do padrão, mas logo avança para outras camadas: a pobreza financeira, a saúde debilitada, a falta de verniz social, o desequilíbrio emocional. Cada uma dessas fraturas carrega a marca da falta, e por isso incomoda tanto. A conclusão do sistema é gélida: onde a cultura não encontra a beleza do sucesso ou o valor da utilidade, não encontra também lugar para o acolhimento. A imperfeição torna-se um erro na engrenagem, a…
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Descobri os blogs
A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…
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Cheiro de carro novo
Nos anos 1990, uma pessoa de baixa renda conquistar um carro zero quilômetro não era comum. Nos bairros periféricos se viam poucos carros, muito raros, e certamente nenhum zero. A notícia de que meu tio havia comprado um carro na concessionária foi recebida com alegria. Parecia que todos nós havíamos melhorado financeiramente, mesmo sem ver o carro. Ele já tinha um Corcel II, se não me engano azul. Agora havia trocado por um Escort Hobby da Ford. Vi o carro pela primeira vez já na garagem, os bancos embalados no plástico transparente. O cheiro de carro novo era cheiro de ambiente que nunca havíamos frequentado. A concessionária presenteou minha tia…
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As revelações
Lembro do Escort XR3 vermelho do meu tio Aroldo. Era fantástico. Nesse eu nunca entrei, mas imaginava aqueles carros de corrida, estilo Ferrari. Nem sabia que Ferrari era uma marca de carro na época. Meu tio Aroldo era ourives, morava em Macaé, no Rio de Janeiro. Havia se casado com uma ex-irmã de caridade, a Matilde. Quando vinha a Vitória, passava lá na Grande Vitória. Lembro que em uma dessas visitas o carro ficou estacionado do lado de fora do quintal. A rua era estreita, mas não havia problema, pois raramente passaria um carro por ali naquela época. Ele entrou com aquela roupa bacana, camisa polo, que eu não sabia…











