• Educação & Cuidado

    Todos os homens desejam conhecer

    A Metafísica de Aristóteles começa com uma das frases mais famosas já escritas: Todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Não é uma exortação. É uma afirmação factual sobre a espécie. Ele a apoia no prazer que temos com os sentidos, sobretudo com a visão, que buscamos mesmo quando não vai servir para nada. Li isso e resumi para uma disciplina. E, um ano antes, eu havia entrevistado uma turma de sétimo ano numa escola pública de periferia. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Responderam que não consideravam importante. Anotei no meu relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles, e escrevi uma pergunta que não…

  • Pólis & Gestão

    As parteiras

    Na Viena da década de 1840, o hospital geral tinha duas alas de maternidade. Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, a mortalidade por febre puerperal chegava a mais de dez por cento. Na segunda, atendida por parteiras, ficava em torno de quatro. Guarde a segunda frase, porque ela costuma passar em branco quando a história é contada. O setor com menos formação, menos prestígio, menos salário e nenhum acesso à sala de autópsia tinha um quarto dos mortos do setor prestigiado. E aquilo durou anos sem que ninguém investigasse. Não é que os dados estivessem escondidos. Estavam no registro do hospital, e as próprias parturientes conheciam a…

  • Pólis & Gestão

    O corredor

    Naquela escola, todos me trataram bem. O vigilante do portão me cumprimentou e abriu para o carro entrar. A secretária me atendeu ao telefone, não sabia responder e me orientou a ligar de novo vinte minutos depois. A coordenadora marcou entrevista para a mesma tarde. Anotei tudo isso no diário e usei a palavra cordial quatro vezes em duas páginas. Menos uma vez. Num dia de aula, cheguei e fui procurar o professor de Artes. Entrei no corredor que dá na sala dos professores. E fui abordado por um professor da escola, de maneira hostil, que me questionou, com pouca educação, o que eu estava fazendo naquela área. Expliquei que…

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    O prédio que era da medicina

    A Escola Viva de São Pedro funciona nas antigas instalações do Campus II da FAESA. A FAESA foi a maior faculdade privada do Espírito Santo, e o Campus II abrigava os cursos da área da saúde. Quando a instituição desocupou o espaço, o Estado aproveitou parte dele para instalar uma escola pública de tempo integral. Anotei isso no meu diário de estágio, em 2022, dentro de um item que eu havia chamado de observações estéticas. Escrevi que as instalações eram dignas de espaço de ensino superior. Escrevi sobre a vista panorâmica para a baía de Vitória, sobre a circulação de ar, sobre o amplo estacionamento, a quadra poliesportiva e o…

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    Tenho como provar

    Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase: Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas. Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso. E ainda assim eu ofereci provas. Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede…

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    O nome que falta

    Num trabalho de licenciatura, discorri sobre interseccionalidade ao longo de várias páginas, apoiado numa única autora brasileira que resumia o conceito. Escrevi que a interseccionalidade é uma ferramenta criada para identificar o racismo. Está pela metade, e a metade que falta é justamente a que dá nome à coisa. O termo foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, jurista negra estadunidense, num artigo sobre um caso concreto. Trabalhadoras negras processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou o caso em dois eixos separados. Para discriminação racial, olhou os homens negros da empresa, que estavam empregados. Para discriminação de gênero, olhou as mulheres brancas, que também estavam. E…

  • Educação & Cuidado

    De onde vem essa convicção

    Entrevistei alunos de uma escola durante um estágio supervisionado. Perguntei o que achavam das aulas de Artes. Disseram que não tinham muito interesse, porque não consideravam a disciplina importante. Anotei no relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles. E então escrevi, no meio de um documento acadêmico, uma pergunta que eu não sabia responder: De onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos? Eram meninos e meninas de doze, treze anos. E eles já sabiam, com segurança, qual conhecimento vale e qual não vale. Ninguém nasce sabendo isso. Não existe criança que chegue ao mundo hierarquizando saberes por utilidade. A convicção de que Artes é secundária…

  • Educação & Cuidado

    Sessenta cores

    O professor me contou, durante o estágio na Escola Viva em São Pedro, que havia comprado uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno. O menino sonhava com aquela caixa. A família não podia comprar. Então o professor comprou. Anotei o episódio no diário e escrevi, logo em seguida, que ele havia se envolvido emocional e economicamente na realidade social do aluno. E acrescentei uma ressalva: que essa proximidade pode ser boa ou ruim, dependendo de como as relações se desenvolvem. É uma frase correta. É o que se ensina em qualquer formação sobre vínculo profissional. É o que eu diria hoje a um…

  • Educação & Cuidado

    Descaracterizado

    No primeiro dia em que acompanhei a turma em meu estágio supervisionado, o professor precisou se ausentar e uma professora de outra disciplina ficou com os alunos. A tarefa era copiar slides sobre grafismo. Ninguém copiou. Passaram a aula interagindo entre si. E eu anotei três frases no meu diário. Percebi que um aluno estava descaracterizado. Ele não estava de uniforme. Percebi que ninguém ligava para ele, e que ele fazia o que queria. Foi só isso. Escrevi as três frases e passei para o item seguinte. Levei quatro anos para reparar na palavra que eu havia usado. Descaracterizado é o termo administrativo. É assim que se diz, no vocabulário…

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    Cara de campus

    Escrevi, no meu diário de estágio supervisionado em Licenciatura em Teatro, que a escola em que estava fazendo estágio não tem cara de escola. Tem cara de campus. O prédio não foi pensado para abrigar crianças ou adolescentes. Foi construído para abrigar uma faculdade de cursos da área da saúde, com estudantes adultos que pagavam mensalidade e que atravessavam aqueles corredores para aprender a operar corpos. Quando o Estado assumiu o espaço e instalou ali uma escola pública de tempo integral, fizeram-se adaptações. Pintou-se. Ajustou-se. E, no meu parecer de estagiário, aquilo não foi suficiente para que o lugar tomasse jeito de escola. Está esteticamente bem cuidado. E não alcança…