Cara de campus
Escrevi, no meu diário de estágio supervisionado em Licenciatura em Teatro, que a escola em que estava fazendo estágio não tem cara de escola. Tem cara de campus.
O prédio não foi pensado para abrigar crianças ou adolescentes. Foi construído para abrigar uma faculdade de cursos da área da saúde, com estudantes adultos que pagavam mensalidade e que atravessavam aqueles corredores para aprender a operar corpos.
Quando o Estado assumiu o espaço e instalou ali uma escola pública de tempo integral, fizeram-se adaptações. Pintou-se. Ajustou-se. E, no meu parecer de estagiário, aquilo não foi suficiente para que o lugar tomasse jeito de escola.
Está esteticamente bem cuidado. E não alcança o espírito da coisa.
Escrevi também, no mesmo diário, a razão pela qual aquilo me incomodava, e é uma razão que vem da minha outra formação: como aluno de Teatro, penso que a noção estética permeia o aprendizado e importa para o desenvolvimento da criança e para as suas relações com o mundo.
Teatro é o ofício de saber que o espaço fala. Que a altura do teto muda o que se pode dizer ali dentro. Que uma sala com pé-direito de auditório e vista panorâmica não produz o mesmo tipo de conversa que uma sala pequena com carteiras encostadas. Que um corredor projetado para adultos apressados atendendo pacientes não é um corredor projetado para adolescentes que precisam de lugar para se encostar.
Um prédio ensina antes que qualquer professor abra a boca.
E há um paradoxo aqui que eu não sabia formular naquela época.
Aquele prédio é bom demais para aqueles alunos, no sentido em que ninguém esperava que estudantes de São Pedro tivessem vista para a baía de Vitória e auditório de faculdade privada. É reparação, e é justa.
E é inadequado para eles, porque foi desenhado para outra gente, com outra idade, com outro corpo e outro propósito.
As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é isso que torna o caso interessante. A escola pública brasileira, quando finalmente recebe um espaço decente, quase sempre o recebe de segunda mão, adaptado de algo que serviu antes a quem podia pagar.
Ganha-se o prédio. Não se ganha o projeto.


