Educação & Cuidado

Descaracterizado

No primeiro dia em que acompanhei a turma em meu estágio supervisionado, o professor precisou se ausentar e uma professora de outra disciplina ficou com os alunos. A tarefa era copiar slides sobre grafismo. Ninguém copiou. Passaram a aula interagindo entre si.

E eu anotei três frases no meu diário.

Percebi que um aluno estava descaracterizado. Ele não estava de uniforme. Percebi que ninguém ligava para ele, e que ele fazia o que queria.

Foi só isso. Escrevi as três frases e passei para o item seguinte.

Levei quatro anos para reparar na palavra que eu havia usado.

Descaracterizado é o termo administrativo. É assim que se diz, no vocabulário escolar, que um estudante está fora do uniforme. Está no regimento, está na ocorrência, está na boca de todo mundo que trabalha em escola. Ninguém pensa duas vezes ao usar.

Mas veja o que a palavra diz.

Ela não diz que o aluno está sem uniforme. Diz que ele está sem características. Que perdeu aquilo que o caracterizava. Que, retirada a camisa padronizada, sobrou uma pessoa que a instituição não sabe mais como classificar.

É uma palavra que, sem querer, confessa o funcionamento inteiro do sistema. O uniforme não serve para igualar: serve para tornar legível. Vestido, o estudante é um item reconhecível dentro de uma turma. Sem ele, torna-se ruído.

E ruído, num sistema, não é combatido. É ignorado.

Foi exatamente o que eu registrei: ninguém ligava para ele. E ele fazia o que queria.

Não sei o nome daquele menino. Não sei por que estava sem uniforme naquele dia. Pode ter sido lavagem, pode ter sido crescimento, pode ter sido dinheiro, pode ter sido escolha. Pode ter sido as quatro coisas.

Sei que ele passou uma aula inteira em silêncio administrativo. Presente no espaço, ausente do sistema. Ninguém cobrou dele a cópia dos slides, ninguém chamou a atenção dele, ninguém perguntou nada.

A liberdade dele, naquela manhã, era a liberdade específica de quem já não conta.

E eu, que hoje coordeno assistência estudantil e passo os dias tentando garantir que estudante nenhum saia da conta, vi aquilo, escrevi três linhas e virei a página.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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