Presenças opacas
Há pessoas que, embora continuem respirando fisicamente ao nosso lado, já partiram. Transformam-se em ausências silenciosas, presenças opacas que ocupam a geografia do ambiente, mas desocuparam completamente o nosso afeto. São rostos em trânsito, vozes que soam como ecos anestesiados, sombras que um dia nos foram vitais e que agora vagam no cenário das nossas vidas como figurantes.
Em contrapartida, existe o avesso absoluto: aqueles que, mesmo tendo cruzado a fronteira irreversível da partida, recusam-se a nos deixar. Continuam a habitar o nosso íntimo, cravados no peito como tatuagens invisíveis. Permanecem com uma força que ridiculariza a distância e a morte, mantendo-se inteiros em cada memória e em cada gesto.
A vida é pontuada por fenômenos que dispensam causas evidentes. Da mesma forma que existem nuvens espessas que cruzam o céu sem a menor promessa de chuva, há um calor que arde sem a chancela do sol. Há espantos que emergem sem o gatilho do medo. Experimentamos dores que latejam sem que haja qualquer escoriação na pele, cicatrizes que habitam o espírito e que não derivam de um golpe externo, mas de uma fratura íntima. Um abismo sem forma que ecoa dentro de nós, fazendo com que o silêncio pese infinitamente mais do que o chumbo de qualquer palavra.
E assim seguimos: equilibrando-nos no fio da navalha entre o que está e o que já partiu, entre a concretude do que sentimos e o breu do que não compreendemos, entre a riqueza das memórias que protegemos e o peso dos vazios que arrastamos.
A insuportável e bela presença das ausências.


