Desprovido de pontes
Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior.
Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque, uma miragem que se dissolve no instante em que tentamos capturá-la.
Então, o vento sopra.
É uma brisa sutil, porém obstinada, que nos recorda que, mesmo na ausência de pontes, mesmo esmagados pela distância de quem está do outro lado, há alguma coisa que vence o abismo. O verdadeiro milagre não reside na utopia de alcançar a linha do horizonte, mas na coragem de ser, na teimosia de manter-se fiel à própria identidade e de encontrar, na poeira da travessia, o calor que tanto projetamos no amanhã.


