Educação & Cuidado

Sessenta cores

O professor me contou, durante o estágio na Escola Viva em São Pedro, que havia comprado uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta cores para um aluno.

O menino sonhava com aquela caixa. A família não podia comprar.

Então o professor comprou.

Anotei o episódio no diário e escrevi, logo em seguida, que ele havia se envolvido emocional e economicamente na realidade social do aluno. E acrescentei uma ressalva: que essa proximidade pode ser boa ou ruim, dependendo de como as relações se desenvolvem.

É uma frase correta. É o que se ensina em qualquer formação sobre vínculo profissional. É o que eu diria hoje a um servidor da minha equipe que me contasse a mesma coisa.

E é a frase mais covarde do meu diário inteiro.

Porque eu, de todas as pessoas, sabia exatamente o que era aquela caixa.

Eu cresci num bairro onde cada brinquedo, cada livro e cada disco que chegava às minhas mãos era o resultado de um esforço familiar. Meus pais não compravam: investiam um pedaço da própria vida, doavam horas de trabalho e cortavam desejos próprios para que eu tivesse aquele pequeno luxo. Eu aprendi a tratar objeto como relíquia, e detestava emprestar, porque sabia que ninguém enxergava o suor impregnado ali.

Sessenta cores.

Não doze, não vinte e quatro. Sessenta. Aquela caixa que fica na prateleira alta da papelaria, que a criança olha na fila do caixa, que nunca desce.

Um menino de escola pública, numa turma que não consegue ficar dez minutos sentada, num prédio adaptado de faculdade privada, queria sessenta cores.

E um professor de artes, com salário de professor de artes, foi lá e comprou.

Eu vi isso, registrei em três frases, e imediatamente tratei de avaliar o risco profissional envolvido.

É que naquele momento havia duas pessoas dentro de mim, e ganhou a errada. Ganhou o coordenador que gerencia equipe, avalia vínculo e pensa em limite de atuação. Perdeu o menino que sabia, sem precisar de teoria nenhuma, o que acontece quando alguém te dá uma coisa que você achava que nunca ia ter.

O coordenador tem razão, aliás. Vínculo mal conduzido adoece profissional e prejudica estudante, e existem casos difíceis que exigem exatamente aquele tipo de cautela.

Mas a cautela não era a primeira coisa a ser dita ali. A primeira coisa era outra, e eu não disse.

Um homem gastou o próprio dinheiro para que um menino pobre tivesse sessenta cores em vez de doze.

Isso é a coisa mais parecida com educação que eu vi em todo o meu estágio.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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