Filosofia & Teologia

O cientista e a cobaia

Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não.

Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias.

Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo a falência aqui em qualquer área da vida, seja financeira, emocional ou estrutural, a advertência torna-se clara. Conselhos são vetores de força: alteram o nosso plano de pensamento e desviam o nosso rumo. A passividade consiste em permitir que a mente de quem está no comando do próprio naufrágio assuma o leme do nosso barco.

E aqui é fundamental purificar a palavra sucesso. Não falo do sucesso oco que a vitrine das redes sociais tenta impor, mas da raiz do termo: a sucessão de acertos que leva a um objetivo.

Dizer não aceite conselhos de pessoas falidas não é apelo à arrogância nem desprezo pelo erro alheio. É alerta contra a osmose intelectual. Há, inegavelmente, lições valiosíssimas a extrair das ruínas de quem fracassou, mas a captura desse aprendizado não pode ocorrer por aceitação cega. Exige uma escuta armada de discernimento.

O fracasso do outro é um excelente laboratório, desde que você seja o cientista observador, e não a cobaia.

É necessário exercer uma curadoria implacável: olhar para a falência alheia, filtrar o que serve como alerta de perigo e descartar as justificativas que normalizam a derrota.

Aprender com o erro do outro é sabedoria. Entregar o leme a quem se acomodou nele é abrir mão da própria rota.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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