A porta do recomeço
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório.
Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias.
Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam o diagnóstico que mais temíamos. Arquivamos a história na gaveta amarga do fogo de palha.
E o tempo correu o seu curso inflexível até que, hoje, ele retornou. Entrou pela mesmíssima porta por onde, anos atrás, havia decidido sair.
Ajoelhou-se para receber a oração, como sinal visível de quem depõe as armas. E quando se ergueu, era nítido que levantava-se também por dentro.
A lição que fica cravada neste domingo é que a porta do recomeço nunca se tranca por fora.
Voltar ao lugar da própria queda não é tarefa para covardes: exige a paciência de reconstruir e a bravura de recuar alguns passos. Aos olhos do mundo, retroceder pode soar como perda de tempo e orgulho ferido. Na arqueologia da alma, porém, esse recuo é o que pavimenta o trabalho de Deus em nós.


