Filosofia & Teologia

A paciência de um historiador

Todos carregamos os germes da autodestruição, forças silenciosas que, deixadas à própria sorte, florescem em infelicidade. Esses impulsos manifestam-se como dúvidas crônicas, inseguranças latentes e a paralisia da autossabotagem. O fracasso raramente é um acidente de percurso: é a colheita de uma semeadura negligente. Ignorar os sintomas é permitir que pequenas ervas daninhas se transformem em árvores cujas raízes acabam por nos prender.

O declínio raramente acontece de forma abrupta. Ganha musculatura na sombra, alimentado pelos pequenos sinais de desleixo que decidimos não ver. Quem vive sob essa letargia age com a arrogância de quem possui milênios à disposição, desperdiça horas em hábitos estéreis e adia o essencial, como se o tempo fosse inesgotável. Este é o sintoma mais insidioso: a ilusão de que sempre haverá uma outra chance esperando na próxima esquina.

A superação exige a coragem de submeter os próprios comportamentos a um escrutínio imparcial. E surge aqui uma verdade cortante: se a realidade sobre quem somos nos machuca, deveríamos ser gratos por essa dor. Ela revela exatamente onde a alma está desalinhada. Em vez de fugir do desconforto, é preciso habitá-lo, porque ele é o sinal de que a casca do conformismo começou a quebrar.

Exige-se uma honestidade brutal, visto que é muito mais confortável camuflar limitações sob o manto da resignação do que enfrentá-las em campo aberto.

Existe uma sabedoria que só se deixa capturar com o distanciamento. Primeiro enfrentamos a experiência; apenas mais tarde, na revisão do inventário, compreendemos o desenvolvimento que ela provocou. O erro deixa de ser derrota no instante em que se transmuta em pedagogia.

Para curar o fracasso, é preciso abandonar o imediatismo e observar a própria trajetória com a paciência de um historiador.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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