Fome de ser
Existe em mim uma fome de ser, uma força oculta que vibra na fundação da existência. Sinto, de forma quase visceral, a intuição de que não estou completo, e é essa consciência da falta que me obriga a interrogar o mundo com uma pergunta: qual é, afinal, o meu lugar? Não procuro a resposta em um crachá, em um cargo ou em um rótulo transitório. O que me move é a busca por uma identidade que me defina na essência.
Vivemos, no entanto, em uma engrenagem que detesta o infinito. A sociedade limita o sentido da existência a funções utilitárias, como se a complexidade da alma pudesse ser enjaulada em planilhas. Quando a minha urgência de ser autêntico colide com as regras da manada, nasce a resistência.
O primeiro chamado de que tenho memória despontou na infância. Entre brincadeiras, eu me projetava como pastor, alguém capaz de celebrar a comunhão com reverência, sonhando em ser o canal para tocar a alma das pessoas. Simultaneamente, habitava em mim a figura do executivo, um arquétipo que eu mal compreendia, mas que traduzia liderança, alcance e discernimento.
Com o amadurecimento, o desejo ganhou novas camadas. A vontade de curar apontou para a enfermagem e, em seguida, para a medicina. Era a vocação de ser o guardião da fragilidade humana. Contudo, esse ideal esbarrou no cinismo. Fui alvejado pelo julgamento velado e pelas risadas daqueles que duvidaram de mim quando declarei o sonho de ser médico. A incredulidade alheia me apequenou. Aquelas vozes ecoaram na minha própria mente, minaram a minha autoconfiança e desviaram os meus olhos do alvo que me fazia vibrar.
Fui empurrado, então, para o desvio de rota: psicologia, ciências sociais, direito, história. Até que ancorei na administração. Foi ali que construí a minha trajetória, mas o fantasma do e se ainda assombra os corredores da memória, e reverbera no vão entre o que me tornei e o que eu poderia ter sido.
O que fazer diante dos estilhaços dessa bússola quebrada? Há uma urgência em costurar aqueles desejos pueris com a realidade do presente. Talvez o lugar que eu tanto busco esteja muito além das nomenclaturas que o mercado idolatra. A grande descoberta não é achar uma cadeira vazia, mas ter a audácia de ocupá-la com a totalidade de quem eu sou.
A direção pode ter sofrido solavancos, mas o compasso secreto continua a bater. Mesmo através da administração, o menino que desejava pastorear, liderar e curar nunca deixou de operar.


