Filosofia & Teologia

O Estrangeiro de Si: A Liturgia do Consumo e o Resgate do Despojo

Houve um tempo em que a esperança parecia caber em uma trama de algodão egípcio. Olhar para aquela camisa branca pendurada era, para mim, como contemplar um estandarte de guerra; uma armadura tecida com a promessa de que eu, finalmente, seria alguém digno de ser amado. “É ela”, pensei, “é ela que me fará conquistá-la”. Naquela época, eu não comprava roupas; eu comprava talismãs para esconder a minha própria nudez existencial.

O preço daquela ilusão foi obsceno. Uma transação que ignorava a lógica e o salário, alimentando-se apenas da minha urgência em pertencer. O relógio suíço, que cruzou o oceano como se trouxesse consigo uma nova era, ficou retido na alfândega, como se o próprio tempo me desse um ultimato: “não és digno da minha marca”. Quando finalmente envolveu o meu pulso, ele não me trouxe status; trouxe apenas o peso morto de três meses de liberdade confiscada e uma vergonha que eu não sabia onde esconder.

Eu era um náufrago em 2006, cavucando o solo árido da internet atrás de um mapa que me levasse para fora de mim. Fugia do escárnio de quem ridicularizou a minha camisa social de tecido plástico, aprendendo cedo a lição mais cruel: para ser aceito, eu precisava primeiro me odiar. O “estilo” que me venderam era, na verdade, um exílio. Fui me desfazendo em pedaços emprestados, moldando um boneco de argila ao gosto do desejo alheio, enquanto lobos famintos e parasitas estrategistas se banqueteavam com a minha ingenuidade.

Paguei caro por cada acessório dessa farsa. Paguei a alfândega do ego e o luxo desnecessário que, em vez de me aproximar dela, só me empurrou para mais longe da minha própria alma. A corda apertou por dentro. O deserto da solidão sussurrou promessas de abandono eterno e a pior das traições se concretizou: a promessa de um amor sagrado que se revelou um golpe de mestre. De um lado da mesa, a minha entrega total; do outro, a trapaça de quem devorava, com prazer sádico, os frutos de 20 anos do meu sacrifício. O jarro caiu. A água escorreu. E a vergonha molhou o chão sem dar tempo para o perdão.

Assumi o desastre. No banco de trás do carro, o meu grito foi a única testemunha da minha queda. Fui expulso do paraíso por desejar demais a aprovação de quem nunca me veria de verdade. Fui contaminado pelo raso e pelo banal até ficar nu de mim mesmo.

Mas hoje, as cicatrizes falam mais alto que a vergonha. Percebo que o estilo nunca esteve na fibra do algodão ou no movimento das engrenagens suíças. Ele estava na dignidade que restou após o despojo. Talvez eu não tenha conquistado o mundo que eu desejava aos 20 anos, mas conquistei algo muito mais raro: fui inteiro no meu fracasso. E ser um homem inteiro no meio dos escombros é infinitamente mais digno do que ter sido apenas metade no topo de um sucesso fictício.

Muitas vezes, passamos anos tentando “comprar” o amor e o respeito dos outros, vestindo armaduras que não nos servem e carregando relógios que marcam apenas o tempo que estamos perdendo de nós mesmos. É preciso coragem para admitir que fomos “nus” ao mercado das vaidades e voltamos de mãos vazias, mas com a alma recuperada. Você já sentiu que precisou “negar a si mesmo” para ser aceito em algum lugar, apenas para descobrir que o preço foi alto demais? A caixa de comentários é o nosso espaço de acolhimento para essas histórias de resgate.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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