A renúncia invisível
A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra.
Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo.
O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica.
A imanente é Deus em Si mesmo, na plenitude da vida divina, antes de qualquer história. É o mistério que não depende da criação para existir. A econômica é Deus irrompendo no tempo, deixando-se conhecer no envio do Filho e na missão do Espírito, agindo na nossa carne e no nosso sofrimento. Foi Karl Rahner quem formulou o axioma que liga as duas: a Trindade econômica é a Trindade imanente, e vice-versa.
Deus não precisava de nós para ser Deus, e ainda assim decidiu administrar a nossa salvação. Aqui a palavra economia, do grego oikonomia, despe-se do sentido financeiro e assume a face teológica: é o modo como Deus conduz e distribui o Seu plano de resgate na história. Não é um orçamento. É um itinerário de graça.
Reconheço que termos como imanente e transcendente não são triviais. Mas a dificuldade é o solo onde a maturidade cresce. Estudar bem é questão de qualidade de vida interior, e ajuda a discernir o que vale a pena seguir num mundo de ruídos.
Precisamos de um retorno às fontes que nos proteja de dois abismos. De um lado, o liberalismo teológico, onde tudo é permitido e quase nada é confessado com firmeza. De outro, a ortodoxia morta, onde a regra é defendida por si mesma e o coração nunca é alcançado. Não basta isolar versículos para validar causas pessoais: o texto só respira dentro do contexto de toda a Bíblia.
E é aqui que entra a autoridade de João. Ele não fala como teórico distante, mas como alguém que experimentou o Verbo. No primeiro versículo da sua carta, condensa a dupla dimensão de Cristo. “O que era desde o princípio” é a divindade preexistente. “O que vimos e as nossas mãos tocaram” é a humanidade concreta. O Verbo eterno que está no seio do Pai torna-se o Verbo da Vida que pode ser tocado.
O testemunho de João é existencial: ele reclinou a cabeça no peito do Mestre e O viu ressurreto. E, como ovelhas que conhecem a voz do seu Pastor, o nosso primeiro sinal de maturidade é a capacidade de discernir a voz de Jesus em meio às ideologias modernas.
A Encarnação é a fresta pela qual contemplamos a intimidade trinitária se derramando sobre nós.
Termino com um chamado prático: organize a sua vida de estudo. Registre as suas leituras, crie um ritmo e não permita que o improviso do dia esmague a sua busca pelo conhecimento. O Deus que rege a eternidade continua agindo, com a mesma intensidade, no pequeno campo de batalha que é o seu cotidiano.
Textos trabalhados: 1 João 1.1-2; João 1.1, 1.14, 1.18; João 10.4, 27; Mateus 17.1-3. Para quem quiser aprofundar: as Confissões de Agostinho, A Trindade de Karl Rahner, os sermões expositivos de Martyn Lloyd-Jones e os comentários de Hernandes Dias Lopes sobre as cartas de João.


