Educação & Cuidado

Todos os homens desejam conhecer

A Metafísica de Aristóteles começa com uma das frases mais famosas já escritas:

Todos os homens, por natureza, desejam conhecer.

Não é uma exortação. É uma afirmação factual sobre a espécie. Ele a apoia no prazer que temos com os sentidos, sobretudo com a visão, que buscamos mesmo quando não vai servir para nada.

Li isso e resumi para uma disciplina.

E, um ano antes, eu havia entrevistado uma turma de sétimo ano numa escola pública de periferia.

Perguntei o que achavam das aulas de Artes.

Responderam que não consideravam importante.

Anotei no meu relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles, e escrevi uma pergunta que não soube responder: de onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos?

Aqueles adolescentes tinham doze e treze anos. E já classificavam conhecimento por utilidade.

Se Aristóteles está certo, o que aconteceu com eles?

Há uma saída fácil e ela é falsa: dizer que aquelas crianças são diferentes, que a pobreza obriga ao pragmatismo, que quem tem fome não filosofa.

É falsa porque eu vi o contrário na mesma escola. Vi aqueles mesmos alunos, que não sustentavam quinze minutos de aula expositiva, entrarem inteiros num jogo teatral. Vi meninas gravando uma coreografia durante a explicação do professor, com atenção, capricho e repetição.

O desejo de conhecer estava lá, funcionando a plena carga.

O que eles disseram não foi que não queriam saber. Foi que Artes não é importante.

E isso não é uma afirmação sobre o desejo deles. É uma afirmação sobre a hierarquia que aprenderam, e que separa o conhecimento que conta do conhecimento que não conta.

Ninguém nasce com essa hierarquia. Ela é ensinada, e é ensinada bem, porque aos doze anos já está firme.

É ensinada na grade horária, que dá uma aula por semana a uma coisa e cinco a outra. É ensinada nas avaliações externas, que medem duas disciplinas e ignoram o resto. É ensinada em casa, quando o adulto exausto pergunta se aquilo vai dar dinheiro. E é ensinada por um país que trata cultura como a primeira linha a cortar.

Então a frase de Aristóteles continua de pé, e o problema é outro.

Todos os homens desejam conhecer. E depois alguém chega e explica a eles o que vale a pena conhecer.

A primeira parte é natureza.

A segunda é currículo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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