Dez minutos
No meu diário de estágio, em 2022, escrevi o seguinte sobre a turma que eu observava:
Na sala de aula a maioria dos alunos se levanta da cadeira. Não conseguem ficar sentados por dez minutos sem se levantar, nem que seja para não fazer nada e sentar novamente.
A observação está certa. Foi o que eu vi, várias vezes, durante semanas.
Anotei também que o professor concentrava a parte teórica sempre no início da aula, e supus o motivo: os alunos não conseguiam prestar atenção por muito tempo. Anotei que nos momentos teóricos eles perdiam a atenção com facilidade, que conversavam muito, que o professor avaliava mais o aspecto prático.
E então escrevi a frase que hoje me incomoda:
Percebi que é uma característica comportamental que deve ser trabalhada.
Trabalhada em quem, exatamente.
Naquela época eu ainda não estudava o que estudo hoje. Comecei o doutorado depois, e desde então passo os meus dias investigando o que os sistemas de atenção contínua fazem com a subjetividade de quem estuda e de quem ensina. Leio sobre captura de atenção, sobre desenho de interfaces feitas para não deixar ninguém parado, sobre o que acontece com uma geração inteira que cresceu dentro de arquiteturas construídas por engenheiros muito bem pagos para tornar a permanência impossível.
E aí releio a minha própria frase de 2022 e vejo um professor em formação diagnosticando como falha de caráter aquilo que é o resultado previsto de um sistema.
Aqueles adolescentes não conseguiam ficar dez minutos sentados. É verdade. Mas eles não escolheram isso, não construíram isso e não lucram com isso. Eles são o produto, não a causa.
E o mais incômodo é que eu também não conseguia.
No mesmo semestre em que escrevi aquele diagnóstico, eu não entreguei o vídeo final da disciplina, perdi o encontro síncrono e escrevi, num relatório oficial, em letras maiúsculas, que havia travado diante das atividades.
Um homem de trinta e sete anos, incapaz de sustentar atenção numa tarefa, anotando num caderno que a incapacidade dos adolescentes de sustentar atenção numa cadeira era uma característica comportamental a ser trabalhada.
Não estou me acusando de hipocrisia. Eu não tinha, naquele momento, nenhum instrumento para enxergar o que estava enxergando. Tinha só a moldura que a escola oferece a quem observa uma sala: aluno disperso, comportamento a corrigir.
É essa moldura que precisa ser trabalhada.


