Memórias de Carros e Família Capixaba
A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro de estofado antigo e o brilho do sol batendo em lataria recém-lavada. Para quem viveu o Espírito Santo dos anos 90, a felicidade tinha quatro rodas e nomes que soavam como música.
O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse a presença imponente do Corcel II do Tio Mário. O carro não era apenas um meio de transporte; era uma extensão da personalidade dele. Quando a porta batia com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Pelo vidro, a paisagem do bairro passava como um filme em câmera lenta, enquanto o ronco do motor ditava o ritmo de uma tarde que parecia não ter fim.
Mas o tempo, esse mestre das transformações, não parava de acelerar.
O sonho dos anos 1990
Em Gurigica, a experiência era outra. O Tio José Luiz não trazia apenas um carro; ele trazia o céu para dentro da cabine. O Escort com teto solar era o ápice da sofisticação suburbana. Abrir aquele teto era como dar um respiro de liberdade em meio à rotina. O vento entrava, bagunçava o cabelo e trazia o cheiro da maresia que atravessava a cidade. Ali, entre as curvas do bairro, a gente se sentia em um videoclipe da MTV, flutuando sobre pneus aro 14.
A memória mais vívida, porém, tem a cor do orgulho. O dia em que a garagem ganhou um novo habitante: o Escort Hobby. Ele chegou reluzente, direto da concessionária, com aquele brilho que só o verniz de fábrica possui.
O Tio Mário, sempre o entusiasta, não celebrou sozinho. Ele sabia que um carro novo é uma conquista da família. A cena ficou congelada no tempo:
- O brilho metálico do Hobby refletindo a luz da tarde.
- O sorriso largo do Tio Mário, entregando um buquê de flores para a Tia Preta.
- O aroma de “carro novo” misturado ao perfume das rosas.
Naquele instante, o carro não era apenas um bem material. Era o símbolo de um esforço, de uma era onde as vitórias eram celebradas com gestos gentis e passeios de domingo.
Hoje, o Corcel II e os Escorts podem ter virado relíquias de colecionador ou lembranças de ferro-velho, mas na rua principal da nossa memória, eles continuam estacionados na porta de casa, com o tanque cheio e prontos para mais uma volta pelo bairro.


