Artes & Narrativas

As revelações

Lembro do Escort XR3 vermelho do meu tio Aroldo. Era fantástico. Nesse eu nunca entrei, mas imaginava aqueles carros de corrida, estilo Ferrari. Nem sabia que Ferrari era uma marca de carro na época.

Meu tio Aroldo era ourives, morava em Macaé, no Rio de Janeiro. Havia se casado com uma ex-irmã de caridade, a Matilde. Quando vinha a Vitória, passava lá na Grande Vitória.

Lembro que em uma dessas visitas o carro ficou estacionado do lado de fora do quintal. A rua era estreita, mas não havia problema, pois raramente passaria um carro por ali naquela época.

Ele entrou com aquela roupa bacana, camisa polo, que eu não sabia na época que se chamava camisa polo. Dizia camisa com gola de três botões. Ela era listrada. Ele já tinha cabelos brancos, barba branca, fama de galanteador, uma bermuda jeans e um sapato marrom mocassim, que eu também não sabia denominar na época.

Tinha uma pochete, de onde tirou uma máquina fotográfica, inacessível para nós. Tirou foto conosco, tirou foto de nós.

Na época havia duas casas em nosso quintal. Morávamos no primeiro andar, papai construiu o segundo e passamos a morar em cima. Embaixo ficou para alugar, e papai conseguiu alugar para um irmão da igreja. Ele tinha uma filha, que também saiu nas fotos. Ficou o registro. Havia também o nosso cachorro, o Leão. Ficou registrado.

Ele foi embora, mas voltou. Voltou para trazer as revelações das fotos. Nos entregou.

Ele foi embora. Não me lembro de tê-lo visto mais. Só lembro de ter ouvido falar dele, até ouvir de minha avó Arlete: Aroldo morreu.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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