Espinho camuflado de flor
Sempre que me aventurei a guiar os meus passos por bússolas alheias, desprovidas da luz do Alto, o peso da fatura foi esmagador. Existe uma verdade de sabor amargo que apenas os escombros do tempo ensinam: o sussurro do insensato costuma apresentar-se como um espinho habilmente camuflado de flor, um atalho sedutor que invariavelmente desemboca no precipício. Cada palavra proferida sem o lastro do amor pela Verdade tem o potencial de nos desfigurar, afastando-nos milimetricamente da identidade para a qual fomos desenhados.
A anatomia da insensatez é previsível. Aqueles que operam sem freios morais, que agem por instinto e que idolatram apenas o que os olhos físicos capturam, marcham sob uma visão curta. Esquecem que a existência é mais densa do que o imediatismo.
Contudo, a tragédia maior não reside em quem emite a opinião estéril, mas na nossa postura quando a acolhemos sem o crivo do discernimento. Confesso que, por vezes, silenciei a minha bússola interior para dar espaço à tolice e ao impulso do efêmero. E o preço cobrado por essa surdez foi sempre exorbitante.
A mente distante de Deus é refém da ansiedade, da urgência e da fúria ditatorial do agora. O sábio, em contrapartida, possui uma visão de longo alcance: compreende que a biografia da alma não se ergue no espasmo do impulso, mas na fundação da paciência e do cuidado contínuo.
Hoje, com a clareza de quem já conheceu o custo do desvio, quero afinar os ouvidos para a voz do Criador naquilo que diz respeito ao rumo da minha vida. Não pretendo mais entregar decisões de fundo a quem não tem esse lastro.
A voz do Espírito é o farol que rasga o nevoeiro das opiniões alheias, e é ela que dá a lucidez para separar o que é poeira passageira daquilo que é ouro.


