Predileção pelos terrenos estéreis
A espera é um território misterioso e frequentemente árido, onde as grandes almas caminham em silêncio, sustentadas por uma fé que se recusa a estiolar. Há quem aguarde por um breve instante e quem suporte a latência por décadas, guardando no peito a certeza de que o relógio divino não sofre de atrasos. Em um mundo viciado no imediatismo, esperar é uma disciplina que poucos solos conseguem suportar sem rachar.
Ao longo da história sagrada, inúmeras mulheres conheceram intimamente essa geografia da esterilidade. Abraçaram o compasso de espera mesmo quando a terra de suas vidas parecia irremediavelmente morta. E tornaram-se campos que, contrariando toda a lógica da biologia, serviram de berço para o impossível. Em um coração que sabe aguardar, cada instante é uma semente lançada. Mas é Deus quem detém a soberania sobre a estação da colheita.
As sementes são promessas encapsuladas. E o melhor dos grãos exige uma terra disposta a romper a casca e gerar vida. Somos canteiros expostos, que recebem enxertos todos os dias: algumas sementes carregam luz, outras são ervas daninhas. A fertilidade não depende apenas da qualidade daquilo que é plantado, mas da nossa abertura à ação do Cultivador.
Deus nutre uma predileção poética pelos terrenos estéreis. Inclina-se sobre os corações que reconhecem a própria falência e que, em vez de capitularem diante da aridez, entregam-se. Onde os olhos humanos atestam apenas o fracasso, Deus enxerga um laboratório sagrado.
Depois que as sementes repousam na terra, cabe a nós o ofício silencioso da vigilância: regar e proteger o solo para que o broto seja de graça, e não de escuridão. É a paciência do lavrador de que fala Tiago, que aguarda o precioso fruto da terra até que venham a chuva temporã e a serôdia.
Hoje, dispo-me das metáforas e trago o meu próprio clamor:
Senhor, que a Tua misericórdia me alcance. Não carrego a pretensão da perfeição; sou apenas um homem tateando em busca do Teu amor, ansiando viver para os Teus propósitos, ainda que eu tropece tantas vezes na travessia. Que a Tua mão repouse sobre mim e me guie, mesmo nos dias em que a terra da minha alma parecer um deserto inabitável. Ilumina-me, cura as minhas fraturas e transforma-me.


