Educação & Cuidado

Interseccionalidade sem brasileiras

Escrevi um artigo defendendo que a análise de gênero nas organizações precisa ser interseccional.

Argumentei que as barreiras enfrentadas por mulheres negras, mulheres pobres e mulheres de minorias étnicas são ignoradas quando se fala apenas em gênero, e que uma teoria que não considera essas camadas produz uma exclusão adicional.

Está certo, e continuo sustentando.

Agora olhe a bibliografia daquele artigo.

Nancy Fraser, estadunidense. Iris Marion Young, estadunidense. Seyla Benhabib, turca radicada nos Estados Unidos. Kimberlé Crenshaw, estadunidense. Pierre Bourdieu, francês. Jürgen Habermas, alemão. Max Weber, alemão. Boaventura de Sousa Santos, português. David Salsburg, estadunidense.

Nenhuma autora negra brasileira.

Nenhuma autora brasileira, aliás.

Escrevi sobre a exclusão de mulheres em cargos de gestão, no Brasil, para leitores brasileiros, e não citei uma única pessoa que tenha pensado isso a partir daqui.

E existe tradição. Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, entre outras, produziram, décadas atrás, análises sobre a articulação entre raça, gênero e classe no Brasil, e o fizeram descrevendo uma sociedade que não é a estadunidense nem a francesa.

Não são leituras difíceis de encontrar. Estão publicadas, reeditadas e disponíveis.

E há um agravante no meu caso.

Coordeno, no meu campus, o núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas. É parte do meu trabalho sustentar que essas autorias importam e que a ausência delas nas bibliografias não é neutra.

Escrevi um artigo inteiro sobre interseccionalidade sem nenhuma delas.

O mecanismo eu já descrevi noutro texto: quando não conheço um campo, uso o vocabulário que tenho na mão. E o que eu tinha na mão era o cânone que aparece nas disciplinas que cursei.

Isso importa porque a interseccionalidade não é uma teoria que se aplica igual em qualquer lugar.

O cruzamento entre raça, gênero e classe no Brasil tem uma história específica: escravidão que durou mais tempo que em qualquer outro país das Américas, um mito de democracia racial que operou por décadas como política de Estado, e uma estrutura de trabalho doméstico que colocou mulheres negras dentro das casas de mulheres brancas em posições que nenhum conceito importado descreve bem.

Nada disso aparece num artigo construído sobre um caso judicial de Michigan e sobre a teoria do capital simbólico de um sociólogo francês.

Não é que aqueles autores estejam errados. Fraser, Young e Crenshaw são excelentes e a crítica delas a Habermas é boa.

É que eu escrevi sobre exclusão usando exclusivamente autorias do centro, num texto que denuncia o que acontece quando as vozes do centro decidem o que conta.

E a correção é a mais simples de todas as que apareceram neste ano de revisão.

Não exige mudar o argumento. Exige ler mais três autoras e citar quem pensou isso primeiro, em português, olhando para o país onde eu moro.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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