Educação & Cuidado

Crawford

Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão.

O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo.

E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam.

No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991.

Na lista de referências, está escrito assim:

CRAWFORD, Kimberlé.

O título do artigo dela está certo. A revista está certa. O volume, o número, as páginas e o ano estão certos.

O sobrenome está errado.

Num texto sobre a invisibilização das contribuições femininas, eu errei o nome da mulher que criou o conceito central do meu próprio argumento.

E não é a primeira vez.

Meses antes, escrevi outro trabalho sobre interseccionalidade e usei o conceito ao longo de várias páginas sem citar Crenshaw uma única vez. Escrevi, quando percebi, que deixar a autora de fora do texto era fazer com o nome dela o que o tribunal fez com as clientes dela.

Agora ela está citada e o sobrenome está trocado.

Duas vezes, com o mesmo nome, na mesma direção.

Não vou tratar isso como acaso, e também não vou tratar como algo mais grave do que é.

É um erro de digitação que passou por revisões.

E é exatamente assim que a invisibilização funciona na prática. Ela quase nunca aparece como recusa deliberada. Aparece como pequenas falhas de atenção que atingem sempre as mesmas pessoas, e que passam porque ninguém que leu conhecia o nome bem o suficiente para tropeçar nele.

Se eu tivesse escrito Bourdieau, alguém teria visto.

Se eu tivesse escrito Habermans, alguém teria visto.

Escrevi Crawford, e o artigo seguiu.

E vale registrar quem é a pessoa que teve o nome trocado.

Kimberlé Crenshaw é jurista, e formulou o conceito de interseccionalidade a partir de um caso concreto: trabalhadoras negras que processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou raça olhando os homens negros da empresa e gênero olhando as mulheres brancas, e concluiu que não havia discriminação. Elas caíam no vão entre as duas categorias.

O conceito nasceu para nomear pessoas que somem entre as caixas.

Escrevi o sobrenome dela errado num artigo cujo argumento inteiro se apoia nesse conceito.

Corrijo aqui, com o nome certo, e registro o erro em vez de apagá-lo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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