Andaime
Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras.
Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem as garantias do aplauso, você se dispôs a sustentar o que era necessário.
Pode-se argumentar que a escolha recai sobre o provisório por falta de opções. Às vezes é exatamente isso. Não havia outro nome, o prazo apertava, e o convite chegou por descarte. Mas isso não altera o que veio depois: quem aceitou continua tendo aceitado, e a obra continua precisando de quem a segure.
A interinidade carrega uma liberdade singular. Quem habita o transitório não teme o julgamento do minuto seguinte, e desafia a si mesmo a transformar o efêmero em algo que transcenda a própria duração.
O provisório não se esconde na sombra do definitivo. Ele ergue-se como a andaimaria indispensável que suporta o peso da dúvida e da necessidade. E o definitivo nada seria sem a interinidade que o pavimentou.
O valor não reside em ser eterno, mas em ser presente. A coragem, ao contrário dos cargos, é sempre definitiva.


