O gamão
Escrevi que Hume tem uma moral provisória.
Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro.
E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso.
O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve?
Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente.
É uma solução de engenheiro. Há um plano, e o provisório faz parte dele.
Hume não decide nada.
No Tratado, depois de levar o ceticismo até onde ele vai, ele descreve o que acontece quando sai do gabinete. Janta, joga uma partida de gamão, conversa, se diverte com os amigos. E, ao voltar depois de três ou quatro horas para aquelas especulações, elas lhe parecem tão frias, forçadas e ridículas que ele não consegue retomá-las.
Não é que ele tenha refutado a própria dúvida. Ele foi jantar.
E na Investigação isso reaparece como constatação geral: a natureza é sempre forte demais para o princípio.
Não é uma decisão. É uma derrota da argumentação diante da vida, e ele registra sem se envergonhar.
E é isso que descreve o que aconteceu comigo.
Eu não decidi continuar pregando enquanto examino as minhas dúvidas. Não houve reunião interna, não houve máxima adotada, não houve declaração de provisoriedade.
Continuei porque chegou domingo.
Porque tem gente esperando, porque o culto é às dezoito horas, porque alguém precisa abrir a porta e alguém precisa falar, e porque nenhuma dúvida minha suspende o calendário de uma comunidade.
E porque, ao chegar lá e ver as pessoas, a pergunta que me ocupava na quinta-feira à noite fica com aquele ar frio e forçado que Hume descreve.
Isso não resolve a pergunta. Ela volta na quinta seguinte, igual.
Mas registra uma coisa sobre a natureza das dúvidas que eu levei anos para aceitar: elas convivem com a vida em vez de interrompê-la, e a vida não pede autorização para continuar.
Descartes tem a solução mais elegante.
Hume tem a que acontece.


