O boneco está na sala
Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte:
O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas.
Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal.
Porque o boneco está na sala.
Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo ar que a plateia respira. Alguém o move com a mão, à vista de todos, e ainda assim ele ganha vida. Ninguém é levado a lugar nenhum. É o impossível que entra aqui, no chão de sempre, na mesma hora do relógio.
E é por isso que essa frase me parece maior do que o assunto dela.
O cinema, a televisão e o telefone fazem o contrário. Abrem uma janela e você atravessa. O corpo fica onde está, mas a atenção vai embora, e o mérito da coisa é justamente a qualidade da fuga: quanto melhor a tela, menos você percebe a sala em volta.
O boneco não tem para onde te levar. Ele só tem o aqui.
Aprendi essa diferença muito antes de ter vocabulário para ela.
No quintal da minha infância, uma banheira velha virava mar, e eu remava dentro dela a tarde toda. Um galho virava espada. Uma caixa de fósforos virou caixão, com dois palitos em cruz por cima, para enterrar uma formiga. Uma caixa de pasta de dente virou ônibus.
Em nenhum desses casos eu fui para outro lugar.
A banheira continuava sendo aquela banheira, no mesmo quintal, com os mesmos furos. O que aconteceu foi que o mar entrou no quintal.
É a mesma operação do ator-animador, e é a razão pela qual crianças entendem teatro de bonecos imediatamente e adultos precisam de explicação. A criança nunca deixou de fazer isso. É o adulto que aprendeu a preferir a janela.
E há uma consequência que só percebi agora.
Quando a fantasia te leva embora, você volta e a realidade continua exatamente como era. Não houve alteração: houve intervalo.
Quando a fantasia entra na sala, alguma coisa muda de lugar. Você olha para o mesmo quintal, para a mesma banheira furada, para o mesmo cabo de vassoura, e passa a saber que aquilo pode ser outra coisa se alguém decidir.
Uma é descanso.
A outra é a descoberta de que o mundo é editável.


