A gramática e o poeta
Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos.
A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático.
E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza.
Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma.
Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma impor soberania sobre a intenção, e a rigidez do processo engessar o objetivo da organização. Em 2022 escrevi que a metodologia carrega dentro de si o resultado desejado, e por isso permite aperfeiçoamento e não criação. E hoje escrevo uma tese sobre o que acontece quando sistemas passam a medir o que sabem medir e esquecem o que queriam medir.
Sempre a mesma acusação: a forma engole a intenção.
E aqui, escrevendo sobre bonecos, eu digo o contrário. Digo que sem gramática o poeta não fala.
As duas coisas são verdadeiras, e foi só ao colocá-las lado a lado que eu entendi qual é de fato o meu argumento.
O problema nunca foi a forma existir. Um poeta sem sintaxe não escreve poema, escreve ruído. Um manipulador que não sabe manter o nível do boneco não tem boneco, tem pano pendurado. Um professor sem método não dá aula, improvisa uma hora e perde a turma.
A forma é a condição de qualquer coisa acontecer.
O problema é a forma que sobrevive ao propósito que a criou.
É a metodologia que continua sendo aplicada depois que ninguém lembra o que ela queria alcançar. É o indicador que vira objetivo. É o processo que continua rodando depois que o motivo evaporou.
Quando isso acontece, a gramática segue perfeita e não há mais poeta nenhum.
E há uma consequência prática que me interessa, porque ela desmonta o discurso fácil de quem defende a espontaneidade.
Ninguém escapa da forma pela recusa da forma. Quem se recusa a aprender técnica não fica livre: fica sem instrumento, e sem instrumento não se diz nada, por mais espírito que se tenha.
O caminho é o outro, e é mais difícil. É dominar a gramática a ponto de esquecê-la enquanto se escreve.
O que só acontece depois de anos usando.


