Educação & Cuidado

A noite toda

Mestre Calú conta, numa entrevista, que não se brincava mamulengo por duas horas. Brincava-se a noite toda.

Cinco horas ou mais. E ele sublinha, como quem constata uma perda, que meia hora é o que virou, e que meia hora foge da normalidade da brincadeira.

Escrevi na minha resenha que isso é quase inconcebível para a nossa sociedade urbana. E é. Mas levei quatro anos para entender por que era possível antes.

Não era resistência. Era estrutura.

Ninguém aguenta cinco horas de espetáculo. Ninguém nunca aguentou. O que permite atravessar a noite inteira é não estar assistindo.

Foi o que escrevi sem desenvolver: não se assiste ao teatro de mamulengo, participa-se.

A plateia responde, entra na conversa, provoca o boneco, ri de quem está do lado, sai para beber alguma coisa e volta. O tempo não é o do espetáculo, é o da festa. E festa não tem duração porque não tem começo nem fim definidos: tem gente chegando e gente indo embora, e no meio disso alguém brincando.

Isso não é um teatro que dura cinco horas. É outra coisa, que a palavra teatro descreve mal.

E aí eu penso na turma que observei numa escola pública em 2022, e na frase que escrevi sobre ela no relatório: que a retenção de atuação era de quinze a vinte minutos por aula.

Quinze minutos ali. A noite toda no engenho.

A comparação parece uma denúncia da nossa época e não é, ou não só.

Porque aqueles adolescentes que não sustentam quinze minutos numa cadeira sustentam horas em outro lugar, todos os dias. E sustentam pelo mesmo motivo que o público do mamulengo atravessava a noite: porque estão participando, respondendo, produzindo alguma coisa.

O que não se sustenta é a posição de plateia.

Ninguém consegue mais ficar sentado recebendo por muito tempo, e talvez ninguém nunca tenha conseguido de verdade. A escola pede exatamente isso, cinquenta minutos por vez, cinco vezes por dia, e depois estranha que não funcione.

O mamulengo já sabia disso, no engenho, sem pedagogo nenhum por perto.

Se você quer alguém por cinco horas, não peça atenção.

Peça participação.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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