Por que Birdman
Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme.
Escolhi Birdman.
O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver.
Ele quer ser levado a sério.
Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético.
E, na cena mais conhecida, Riggan sai para fumar num intervalo, a porta dos fundos do teatro se fecha atrás dele, e ele precisa atravessar a Times Square de cueca, no meio da multidão, para voltar ao palco pela porta da frente.
Um homem que queria ser respeitado, exposto em público, sendo filmado por desconhecidos.
Eu escolhi esse filme entre todos os filmes possíveis, e no ensaio escrevi sobre plano-sequência, montagem e espaço cênico.
Não escrevi uma linha sobre por que ele.
Em 2019 eu escrevi um texto sobre um dia de 2001. Um rapaz me convidou para ir a uma igreja, e antes de sair me disse que a minha roupa era brega e o meu cabelo não estava legal. Alisei o cabelo. Fui. Chegando lá, entendi que eu não era escolha, era o que tinha. Aquela noite terminou com a minha dignidade no chão, na frente de gente que eu não conhecia.
Em outro texto, escrevi que eu simplesmente não fui desenhado para habitar este palco.
Em outro, listei o que me envergonhava: o próprio rosto, a voz, o corpo, o sobrenome e a casa. E escrevi que me acovardava em fotografias sombreadas, e que ao lado de amigas bonitas o pavor de sair torto na foto me encolhia.
E há dois anos, projetando uma cena para um trabalho de iluminação, inventei um homem que começa agachado e de cabeça baixa, se levanta com uma confiança vingativa, e termina numa luta entre o que a voz diz e o que o corpo faz.
Birdman é essa cena esticada por duas horas.
Um homem de meia-idade que já foi alguma coisa e teme não ser nada, tentando provar valor num palco, com uma voz interna dizendo que ele não pertence ali, e sendo humilhado publicamente no meio do processo.
Não escolhi aquele filme por causa do plano-sequência.
Escolhi porque, entre todos os enredos disponíveis, aquele era o meu, e eu levei três anos para admitir.
O subtítulo, aliás, é a parte que eu menos entendia na época: a inesperada virtude da ignorância.
Hoje eu entendo. É sobre não saber o suficiente para desistir.


