Artes & Narrativas

Travei

Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro.

Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico:

TRAVEI.

Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim.

Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não saiu.

Escrevi ainda que não conseguia entender a proposta das atividades nem o que deveria ser desenvolvido, e que consultei colegas e percebi que havia entre eles uma desconexão interpretativa.

Hoje eu leio isso e reconheço o mecanismo. Não era a proposta que estava obscura. Era eu que já não conseguia processar instrução nenhuma, porque estava carregando outras coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas cabia num campo de formulário.

Há um tipo de travamento que não se parece com preguiça e não se parece com incompetência. A pessoa continua fazendo tudo o que consegue fazer sozinha, e para exatamente no ponto em que a tarefa exige entregar alguma coisa. Lê, assiste, anota, procura, pergunta. E não produz.

Eu conhecia esse travamento havia décadas, em outros contextos. Não telefonei quando devia telefonar. Não falei quando devia falar. O corpo não saiu do lugar.

Aos trinta e sete anos, ele apareceu no lugar mais burocrático possível: um campo de relatório de estágio, entre uma pergunta sobre leituras e outra sobre encontros síncronos.

E foi ali que eu finalmente escrevi a palavra.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *