Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro.
Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico:
TRAVEI.
Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim.
Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não saiu.
Escrevi ainda que não conseguia entender a proposta das atividades nem o que deveria ser desenvolvido, e que consultei colegas e percebi que havia entre eles uma desconexão interpretativa.
Hoje eu leio isso e reconheço o mecanismo. Não era a proposta que estava obscura. Era eu que já não conseguia processar instrução nenhuma, porque estava carregando outras coisas ao mesmo tempo e nenhuma delas cabia num campo de formulário.
Há um tipo de travamento que não se parece com preguiça e não se parece com incompetência. A pessoa continua fazendo tudo o que consegue fazer sozinha, e para exatamente no ponto em que a tarefa exige entregar alguma coisa. Lê, assiste, anota, procura, pergunta. E não produz.
Eu conhecia esse travamento havia décadas, em outros contextos. Não telefonei quando devia telefonar. Não falei quando devia falar. O corpo não saiu do lugar.
Aos trinta e sete anos, ele apareceu no lugar mais burocrático possível: um campo de relatório de estágio, entre uma pergunta sobre leituras e outra sobre encontros síncronos.
E foi ali que eu finalmente escrevi a palavra.


