Filosofia & Teologia

O diagnóstico de 2001

Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade.

A fonte era um texto de 2001.

E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa.

O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto.

Mas isso explica 2001. Não explica agora.

Porque a partir de 2010 o que passou a ocupar o tempo das crianças não foi a falta de espaço físico. Foi um sistema construído por gente muito bem paga para tornar a permanência impossível e a saída indesejável.

Não é urbanização. É captura de atenção, e é a coisa que hoje eu tenho interesse em estudar melhor.

Eu tinha o dado nas mãos e não fiz a ligação. No mesmo semestre em que escrevi aquele texto sobre jogos, eu estava observando uma turma de sétimo ano numa escola pública, e anotei que praticamente todos os alunos portavam celular em sala, e que algumas alunas começaram a gravar uma dança enquanto o professor explicava.

Está lá, no meu diário, ao lado da frase sobre a rigidez urbana.

E é aqui que a coisa fica mais interessante do que o lamento fácil, porque aquelas meninas não estavam sendo entretidas.

Gravar uma dança é improvisação, cenário, personagem e estrutura de execução. São os quatro elementos do jogo teatral, exatamente como eu os havia definido no outro trabalho. Elas estavam produzindo, não consumindo.

Os jogos não morreram. Migraram.

O que mudou não foi a existência do faz de conta. Foi para quem ele é feito.

No quintal, eu remava numa banheira furada e a plateia era eu mesmo, ou no máximo um primo. Não havia registro, não havia número, não havia devolutiva. O jogo terminava quando a mãe chamava para o banho, e não sobrava nada além da memória.

Aquelas meninas jogam para uma plateia que devolve contagem.

E é essa a diferença que o texto de 2001 não podia prever e que o meu, de 2022, deveria ter notado: não é que as crianças pararam de brincar de faz de conta. É que o faz de conta passou a ser avaliado.

O jogo que produz métrica deixa de ser jogo em algum ponto, e ninguém sabe dizer exatamente onde.

Talvez seja esse o texto que eu deveria ter escrito naquela disciplina.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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