Invisibilidade tática
Há uma sacralidade nos sonhos. Eles repousam no silêncio, resguardados por um véu frágil e intocável. Habitam um território onde o atrito da realidade ainda não os corrompeu, como sementes suspensas, aguardando o instante exato para fincar raízes no solo do possível.
Narrá-los antes da hora é profanar o mistério. Expô-los à luz precoce das opiniões alheias drena o encantamento e a força motriz. O sonho revelado é imediatamente expropriado: perde o poder de ser propriedade exclusiva de quem sonha e desintegra-se em uma versão pública e menor de si mesmo.
No fundo, o sonho é uma verdade embrionária, uma potencialidade que carrega a promessa de uma realidade que está por vir. Ao tentarmos tangibilizá-lo à força, traduzindo-o em imagens prematuras, corremos o risco de aprisioná-lo em limites asfixiantes. É preciso guardar os nossos projetos no escuro da mente até que tenham estrutura suficiente para suportar o peso do mundo.
Sonhar é um espaço onde a psique ousa trespassar as fronteiras da experiência. Mas essa visão é delicada como uma chama exposta à ventania: qualquer palavra mal calibrada pode extingui-la. É por isso que o silêncio é a verdadeira incubadora dos grandes destinos.
O grande segredo do sonho reside na invisibilidade tática, na capacidade de se desenvolver imune à nossa própria pressa.


