Lombada de couro
Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos.
Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso.
Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram de ser caixas herméticas e converteram-se em um borrão de aquarela, onde as tintas de um mês escorrem para dentro do outro. As lembranças sobrepõem-se: o que aconteceu há dez anos parece ter sido ontem, e o que ocorreu ontem soa distante como uma década.
E então veio o abismo maior.
Se os anos anteriores a 2020 já eram um rio de corredeiras rápidas demais, a chegada da pandemia ergueu uma barragem de chumbo. Entre 2020 e 2022, não houve tempo. Houve um vácuo. Fomos atirados em uma suspensão coletiva onde os dias duravam meses e os meses evaporavam em segundos. A vida lá fora paralisou, mas o moinho do tempo continuava girando no escuro, triturando a nossa juventude. Ao emergirmos do outro lado, percebi que um pedaço da minha percepção havia sido roubado. Aqueles dois anos tornaram-se um quarto escuro para onde olho sem conseguir distinguir as formas.
É diante dessa fragmentação que me deparo com a pergunta que espreita nas madrugadas insones: eu uso o tempo ou é ele que tem me engolido?
A grande ilusão da existência moderna, atarefada e refém de prazos, é a convicção de que somos os arquitetos das horas. Acreditamos que, ao preencher planilhas e cumprir agendas, estamos moldando o tempo à nossa vontade. Dizemos que o gastamos, que o ganhamos, que o aproveitamos. Mas quando o chão cede e olhamos para a desordem das nossas próprias lembranças, a resposta emerge.
Nós não consumimos o tempo. Nós somos, irremediavelmente, a sua travessia.
Ele nos engole inteiros. Mastiga as certezas da juventude, dilui os dias comuns na névoa e nos digere nos silêncios longos de um isolamento. Não seguramos as horas com planilhas mais do que conseguiríamos segurar a água de um rio furioso com as mãos nuas.
A verdadeira angústia não nasce da falha da memória, mas da clareza súbita de que o tempo nos devora a cada segundo, transformando o presente tátil em passado embaçado.


