Jesus Menino
Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender.
A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome na fachada, “Jesus Menino”, deu-me uma alegria inesperada. Parecia que, naquele lugar, eu não estaria sozinho.
Ganhei uma cama, minha mãe, não. Era um quarto coletivo, uma enfermaria. Muitas camas, crianças e o cheiro característico dos hospitais, misturando álcool, remédios e o som abafado de passos apressados. Fui vestido com o uniforme do hospital: um conjunto simples, azul-claro, com uma camisa e uma bermuda que levavam o símbolo de um hospital que, naquele momento, parecia meu.
Ajoelhei-me sobre a cama, a janela ao fundo revelando a entrada principal, iluminada por um sol que indicava, talvez, as quatro horas da tarde. Abri os braços, estiquei-os como se pudesse abraçar o mundo e gritei, com um sorriso que contrastava com a gravidade do momento:
– Jesus Menino!
A primeira vez que estive ali foi por um motivo sério: uma cirurgia. Quando me levaram para a sala de operação, o ar mudou. Minha mãe, que sempre me olhava com força, tinha nos olhos algo mais profundo, um silêncio pesado. A enfermeira, com passos cuidadosos, me conduzia.
Na porta da sala de cirurgia, o médico apareceu. Ele me disse alguma coisa, uma fala breve, um murmúrio que o tempo apagou. Lembro-me de ter perdido o uniforme azul-claro; no lugar, vestia um avental branco que, na minha ingenuidade, parecia um vestido. Estava ali, pequeno, vulnerável, sem roupas íntimas, apenas com aquele tecido que mal cobria meu corpo.
Lembro de alguém colocando uma máscara sobre meu rosto. O ar ficou pesado, e a visão, turva. Apaguei. Quando acordei, não estava mais naquele espaço frio e sinistro da cirurgia. Estava na enfermaria, na mesma cama que havia acolhido meu grito de alegria. Para mim, não havia intervalo, mas haviam se passado horas. Quatro horas de silêncio, onde o meu corpo dormia e outras mãos trabalhavam para curar.
Recuperei-me bem. Contudo, voltei ao Jesus Menino algum tempo depois. Minha imaginação de menino me dizia que Jesus Menino caminhava pelos corredores, cuidando de cada criança ali.
Foi ali, naquele espaço entre fé e ciência, que nasceu meu sonho de ser médico.


